sexta-feira, 12 de março de 2010
Sentinela
Naquele dia fez o mesmo de sempre. Tomou um banho e caminhando tranquilamente desceu a rua para tomar a sua bebida. O dono do estabelecimento já sabia o que ele queria e onde ele gostava de sentar. Já estava tudo pronto como sempre. O homem era um observador, sentava na sua mesa e observava. Por isso, quando passou aquela moça de cabelos compridos e lisos de uma cor que os deixavam parecidos com uma cortina negra e brilhosa, ele já sabia que ela não estava perfumada somente por asseio. Então, maliciando falou a quem estava ali no bar:
- Alguém sabe a quem pertence esse perfume – e riu sarcasticamente.
O perfume pertencia a um morador do prédio da esquina, o qual a mulher era freqüentadora assídua de um centro religioso que existia nas proximidades, então a bela morena sabendo disso ia até o apartamento que lá se encontrava o marido sedento de prazer. Tinham uma hora de sexo pouco carinhoso, porque o amante ainda amava a sua mulher, porém a moça dos cabelos lindos o seduzira e realmente ela era uma insaciável. O “coitado” cedeu à tentação. E o observador homem sabia de tudo isso e mais, tanto que talvez com um pouco de inveja disse no bar:
- Ele aguenta porque sei o remedinho que ele compra na farmácia.
Ninguém lhe escutava, ele era um chato e arrogante, além de ser fofoqueiro. Então ali ele seguia na sua incansável tarefa de espião de ninguém. Sabia também do arcano que era guardado pelo garotão que sentado na sua motocicleta, expunha seus músculos como um pássaro que canta o canto do acasalamento. Não comentou nada com ninguém desta vez, pois achava que ninguém tinha inteligência o suficiente para ver as coisas como ele, no entanto, sabia que aquele símbolo da virilidade apenas fazia pose, pois tinha problemas com a sua ereção, e isto ele descobrira escutando uma moça contar a outra, em tom de segredo, entre as prateleiras do mercado.
Pediu mais uma bebida, a esposa traída passou para casa e um pouco a frente do bar se cruzou com a traidora e até se cumprimentaram, ele ria sozinho, se divertia. Não conversava com ninguém, mas se divertia se achando uma pessoa esperta que sabia da vida. Ele era assim, gostava de saber de tudo, falava mal do dono do bar que não sabia cuidar das suas finanças, falava mal do dono de uma loja que bebia demais ali no bar, para todos tinha um dossiê sujo na sua cabeça, e, assim ia passando seu tempo.
Naquela noite os acontecimentos que tinham que acontecer, aconteceram. Então aquele dia tinha terminado, pediu para o dono do bar anotar o que tinha bebido, já estava bêbado, mas pegou mais alguma para beber em casa. Então, levantou-se e sem se despedir de ninguém foi embora, pois ainda tinha mais outros e outros dias para ele, sentado, observar a vida passar.
quinta-feira, 4 de março de 2010
Retorno à escrita
Porém, surpreendentemente a escrita se aliou a algumas adversidades e a inspiração ou vitória da escrita, como preferirem, aconteceu.
Azar é de quem ler. Comentários são bem vindos...SEMPRE!
Da morte à vida
Quando ele abre os olhos ao acordar nem pensa sobre a vida, sua mente já está automaticamente induzida a pensar o mesmo que pensa todos os dias. Abre os olhos assustado. Assimila que tem que desligar o despertador, desliga. Levanta e se espreguiça. Do escovar os dentes até a saída pela porta a rotina é precisamente a mesma. Se alguém dissesse que ele faz dormindo, poderia se acreditar.
Até o caminho ao trabalho é o mesmo, exceto pelo tempo que é mais original que ele próprio, muda às vezes. Os cumprimentos, as piadas, as risadas e até mesmo as xingadas do patrão se repetem. Invariavelmente, de segunda a sexta acontecia a mesma coisa. E durante todo esse tempo o que ele mais aguardava era o sábado e o domingo, como se fosse fazer algo extraordinário.
O sábado e o domingo sempre chegavam. E daí? Nada! No sábado locava um filme, muitas vezes algum clássico, quase sempre algum clássico, pois não queria arriscar de locar alguma novidade, e perder o seu precioso tempo assistindo alguma porcaria. Algumas vezes fazia uma janta, em outras encomendava uma pizza, mas sempre tomava um porre pela madrugada adentro. Era um homem de boa cultura, pois lia bastante, aliás, era até inteligente, todavia não a usava muito, a não ser nessas madrugadas de sábado para domingo que desvendava os problemas mundanos e sociais...para ele mesmo. Então dormia. No domingo, de ressaca, acordava, arrumava a bagunça da noite anterior, comia o resto da comida e recomeçava antecipadamente o martírio semanal, pois a partir do marasmo que é o domingo ele já começava a penar pensando na semana que viria.
Ele já vivera de outra maneira, mas alguém que manda em tudo lhe tirou peças importantes para sua vida ser algo empolgante e feliz. Aos poucos, devido a certas ausências o rapaz foi mudando, foi tornando-se insuportável e o mundo foi virando “um cara” medíocre e chato. As mudanças foram tão naturais que ele nem notou, a tristeza, que aparecera como um fugitivo que entra de abrupto procurando abrigo, se acomodou de tal forma com a sua hospitalidade, que quando a alegria foi embora levando sua bagagem, ele nem notou. Esqueceu que um dia ela o habitara.
Assim viveu anos e, isso não o incomodava, pois algo aconteceu cognitivamente com ele que esquecera totalmente como viver de outra forma. Era uma pessoa neutra, vivia porque tinha que viver, ou melhor: sobrevivia.
Mas a vida é inexplicável, é soberana. Seus ventos mudam sem aviso prévio e sem que possamos entender os motivos, lá no final ela deve apresentar as justificativas para os seus caprichos. Possivelmente, por isso certo dia ele abriu os olhos e pensou sobre a vida - tinha tido uma noite esquisita, agitada, desligou o despertador e seguiu pensando na vida. Não se espreguiçou e foi escovar os dentes, pensando, mas na frente do espelho concluiu os seus pensamentos. Sorriu, e fazia tempo que aquele espelho não refletia um sorriso, então se escovou, vestiu-se e foi rumo ao prédio onde trabalhava.
No prédio, entrou, sorriu ao porteiro que estranhou esse comportamento e mais ainda porque vinte minutos depois ele desceu com cara de alegre e deu um “Tchau!”.
Ele foi viver!
Da vida à felicidade
Seu nome era Carlos e não se sabe a razão, mas naquela manhã estava gostando do seu nome, repetia, “Carlos! Carlos!” enquanto caminhava decidido pela rua. Carlos estava voltando de onde tomou uma decisão determinante em sua vida, e, completamente entorpecido por um sentimento que não sabia qual era, voltava para casa.
Chegou em casa fez uma mala não muito grande, procurou algum número que estava na sua lista de telefones e anotou em um papel, colocou a anotação na carteira, colocou no bolso, pegou a mala, trancou o apartamento e se mandou para resolver pequenas coisas no banco. Quatro horas da tarde, ele já estava dentro de um ônibus que levava a uma cidade bastante distante. A cabeça de Carlos rodava muito mais rápido que os pneus do ônibus e, ele sorria, ele ria, ele gargalhava, por quê? Não conseguia calcular o tamanho da sua atitude. Cada vez que pensava que era loucura, pensava “Ah! Às favas!” e pensava em outras coisas, ou deliciava-se com o vento que empurrava sua cabeça contra o banco. Ouviu vozes:
- Fecha essa janela, imbecil!
E ele sorria e pensava “É, eu realmente sou um imbecil”.
Já havia rodado quilômetros, já haviam passado muitas horas quando ele chegou naquela cidade tipicamente do interior, pela janela Carlos via alguns moradores e não tinha como não reparar na cara de inocência, na cara de quem vive bem a vida simples daquela gente. Ele respirava fundo, e cada vez mais tinha certeza de que estava fazendo a coisa certa. Desceu na rodoviária, pegou a bagagem e decidiu ir a pé até o seu destino. Divertia-se cumprimentando as pessoas que lhe respondiam, porém com uma cara de que não tinham certeza se conheciam aquele homem. Um velho chegou a virar para trás e o reconheceu, mas quando teve certeza Carlos já ia longe.
Aquela senhora quando abriu a porta não estava preparada para ver Carlos assim, tão surpreendentemente. Quase que tudo se estragou. Passado vinte minutos de recuperação o filho conseguiu recuperar a mãe que estava radiante de felicidade e, só abraçava e beijava a sua cria. “Eu sou um imbecil mesmo”, pensava ele, “poderia ter vindo aqui mais vezes” e ia desafogando a velha da sua inundação de alegria.
A mãe de Carlos era viúva e agora tinha além dele outro filho que morava numa cidade próxima, e a visitava seguidamente. Mas além de fazer tanto tempo que não o via, este era o seu filho mais novo, o que por morar longe deveria sofrer mais. Passado o momento do frenesi da chegada, começaram as perguntas, no entanto Caio – assim que ela o chamava, pois ele se autoapelidara por não saber pronunciar o nome quando era bebê – fugia das perguntas dizendo que estava com fome e cansado, depois responderia com calma. Comeu e foi dormir na sua cama de quando ainda era adolescente.
Ao acordar, pensando em como era bom estar ali, sentiu cheiro de comida. A mesa já estava posta e, mal chegou, a mãe já começou a tagarelar. Os vizinhos e as tias de segundo, terceiro e quarto graus já sabiam da visita. Carlos mal ouvia. Parou só quando ela disse:
- Liguei para o seu irmão, sabe como ele é...não falou quase nada, mas disse que no final de semana vem te ver.
- No final de semana já não estarei mais aqui, mãe. Vou abrir um negócio na praia de Paradiso – Falou Carlos.
A empolgada a velhinha parou o que estava fazendo e olhou Carlos com um olhar de quem não acreditava. Mas logo depois dessa reação, notando que o filho não ficara confortável, mudou o tom e perguntou mais descontraída:
- Mas e o seu trabalho lá na cidade?
- Larguei – Ele respondeu ao beliscar a comida que ela servia, e logo depois fez um gesto para que ela não se preocupasse.
Comeram tranquilamente. Na janta lembraram coisas do passado, riram das molecagens e das brincadeiras “desses guris” como dizia ela. Tudo correu bem, a harmonia parecia perfumar o ambiente. Foram até tarde conversando, até que a velha adormeceu. Carlos a acordou e ela foi dormir na cama. Ele tomou mais algumas taças de vinho e foi dormir também. O irmão de Carlos achou muito ruim a atitude do irmão, que ao sair pela manhã só deixou um bilhete avisando que fora embora sem ao menos se despedir, sem falar na atitude de largar o emprego para se aventurar em um negócio incerto.
Mas Carlos queria aventura mesmo. Chegou à praia e a primeira coisa que fez, foi comprar uma moto possante, pois sempre sonhara ter uma - porém as pessoas o censuravam. Então após abrir o seu negócio ele seria seu chefe e sairia a viajar por onde quisesse. Em busca desse objetivo, passado um mês no local Carlos estava com o seu bar de portas abertas, pois ele tinha economias. O que vendia já lhe sustentava sem luxos e, foi assim, sem preocupações, por anos. Todos gostaram do seu jeito, meio sério, meio divertido, “ele parece que sorri para tirar o atrasado” disse um cliente.
E passou um ano desde a abertura do bar Ventura. O bar ia bem porque o dono estava bem, e o dono não precisava de muito lucro, ele precisava outra coisa. E aconteceram várias! Carlos teve muitos amigos, viveu paixões, riu, chorou, abraçou sinceramente e tudo como alguém que encontra água no deserto e pensa só em beber. “Eu sou um imbecil” dizia ele gargalhando aos amigos quando estava bêbado.
Passou pouco mais de um ano, e uma “ardência” que havia tempos incomodava seu coração agora ficara insuportável. Carlos tinha que ver a sua mãe e seu irmão, era tempo disso. Talvez propusesse que viessem visitá-lo? Não, ele pegaria sua moto e iria dessa vez. Ligou para o seu irmão e combinou.
De manhã cedo pegou a sua moto e encarou a estrada. O encontro da família não poderia ser melhor. O irmão de Carlos ficou meio desconfiado à primeira impressão pelo seu sustento, mas depois esqueceu por ver como o irmão estava bem, até pediu conselhos e prometeu que iria levar a mãe, mulher e filhos deles lá "na sua praia", e, noutra vez iria sozinho. Diante de tudo isso a realização da mãe era plena por ver que a sua vida estava novamente se encaminhando como ela pedira nas orações. Na última noite os dois irmãos beberam bastante, confraternizaram e saudaram a vida que estavam levando. Já era tarde quando o irmão dele se despediu, pois um dos filhos chorava e a esposa o chamava. Carlos tomou mais meia garrafa de vinho e decidiu não cumprir o que tinha prometido, depois que abriu o Ventura aprendeu a confiar em si, e achou que se saísse aquela hora ainda chegava para abrir o bar em um horário bom para a clientela. Deixou mais uma vez um bilhete, o irmão até escutou o ronco do motor da motocicleta, mas achou que ele fosse pegar mais vinho e não se levantou.
No outro dia o Ventura não abriu, o irmão recebeu a notícia antes mesmo de ler o bilhete e, uma parte da mãe de Carlos morreu também.
Mas apesar da tristeza que obrigatoriamente restou, com o capacete aberto e o vento na cara, Carlos sorria quando apareceu aquele carro sem luz. Naquele momento ele pensava:
- Eu não sou um imbecil, eu conheci a felicidade!
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Humildade sim, Incompetência não!
A rede globo que acaba de ser premiada pela sua novela “O caminho das Índias” é a maior endeusadora da humildade viciante. A audiência de suas novelas é soberana há anos em nosso país, e quem não tem TV a cabo – a maioria – muito provavelmente irá sentar na frente da televisão e assistir as histórias contadas pela emissora. Eu mesmo a maior parte da minha vida me vi em frente a esse eletrodoméstico, e não me lembro de ter visto alguma vez um personagem sequer que tenha dinheiro ser considerado honesto e de bom caráter. Os personagens ricos são vilões e conquistaram sua fortuna de alguma maneira ilegítima, ou seja, o mérito de quem tem dinheiro não pode ser adquirido pelo trabalho. Se ele está usufruindo de uma mansão é porque ele trapaceou. Por outro lado, todo o coitadinho, sem levar em consideração a possível incompetência, é o que merece a redenção no céu.
Vou dar outro exemplo, este que atinge a paixão do brasileiro, o futebol. É normal a discussão sobre quem é o melhor jogador do mundo, tanto entre amigos, quanto nos programas esportivos, e nelas noto o vício vindo dos comentaristas esportivos que chega à opinião popular. O português Cristiano Ronaldo arrebenta, porém a humildade realmente não é o seu ponto forte, logo é quase certa a frase de que “ele não é o melhor, não joga para o time”. Porém, aos meus amigos – pois aos comentaristas não tenho acesso – pergunto: “Vocês tem acompanhado os jogos dos candidatos a esse título?”, a resposta surpreendente da maioria é não. Mas, então como estão querendo julgar a competência do atleta se não vêem nem ele e nem os concorrentes jogarem? Simples, ele é bom e sabe que é, e isso perturba os brasileiros que só podem admitir que uma pessoa seja merecedora de admiração se for humilde. Particularmente, não vejo problema em reconhecer a competência desde que seja comprovada, e isso se transfere para momentos rotineiros de nossas vidas.
Devido a essa imposição da grande mídia nacional, quando era mais novo sempre via a palavra ambição como alguma heresia, algo comparado a uma pessoa desonesta. Hoje penso que se seguida de maneira honesta, é uma qualidade do ser humano. No entanto, o povo brasileiro é condicionado a encarar como pecado a busca por gerar lucro e ser uma pessoa bem sucedida que usufrui de sua mansão, a qual obteve de maneira honesta. Não preciso ter uma casa grande, minha ambição é menor que isso, mas admiro muito quem trabalha idoneamente para comprar uma, pois afinal devia ser um de seus sonhos e lutou para isso.
A minha ambição é que eu tenha uma vida confortável, mas que busque riqueza realmente no meu intelecto, e dessa maneira não precise ser humilde e nem simpático. Certamente, seria mal visto, pois assim como quem tem um carro importado, aqueles que buscam outras fontes de conhecimentos, as quais não estão impostas e dominadas pela maioria, são encarados como seres chatos de outro mundo. Por isso não é de se espantar que neste país da simpatia e da humildade tenhamos um presidente que só lembra que veio da classe operária, mas não lembra de trabalho algum, e pior, vangloria-se de não ter estudado e ter alcançado o cargo que exerce atualmente. Uma pessoa famosa disse que “o povo não tem a capacidade de escolher seus líderes”; isto é uma verdade e está totalmente conexa com a incapacidade do brasileiro em escolher um ídolo ou mesmo um simplório personagem de novela que seja digno de seu respeito.
A mídia faz isso propositadamente? A resposta está reluzindo, e se não enxergam é porque os fatos não mudarão, e, não adianta vir um arrogante achar que tem a verdade, pois não será ouvido. O único que poderá ser ouvido é o humilde e simpático, mas acho muito pouco provável que este se dispa destas características e abra os olhos e ouvidos dos descrentes.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Respeito e trabalho*
O valor da política vem sendo exterminado diariamente, por fatos que alguns cidadãos, os quais se intitulam políticos, protagonizam. Porém, esse problema nos mantinha uma relativa distância, haja vista que era só visto por acontecimentos que se tornam públicos graças à imprensa nacional. Quando as coisas chegam tão perto que nossos olhos vêem, e a cidade que se morou a vida toda é atingida, a percepção faz com que tais fatos entrem de forma mais agressiva na consciência.
Já há algum tempo os cidadãos vicentenses, que moram no município e os que lá não mais estão, mas ainda guardam a cidade na boa memória, acompanham os embates do nosso prefeito com a justiça. Apesar de manter-me atento, sempre me posicionei respeitosamente neutro, acreditando, todavia, que a justiça é que daria o veredicto e faria o seu papel perante as possíveis irregularidades. No entanto, o privilégio de se ter alguém que nos ensine a ter respeito, realmente, não se estende a todos. Pois o senhor que foi escolhido para administrar São Vicente do Sul atualmente, ou nunca soube o que significa essa palavra, ou realmente esqueceu, pois além de deixar de lado os problemas que a nossa cidade tem, desrespeita o povo com declarações de ameaças infundadas e largadas sem qualquer responsabilidade ou prova, e, usa da credibilidade de alguém que já morreu para que possa aparecer e se projetar. Então, se existe algo real a ser apresentado o prefeito deve fazer e, não ficar apenas dando declarações desrespeitosas e aproveitadoras.
O argumento de que está revidando as acusações de alguns vereadores não é válida, pois estes estão lá para legislar e vigiar as atitudes do executivo, e assim o fazem. Já o nobre prefeito deve contentar-se em tentar mudar para melhor a cidade, e, por favor, não mudar a verdade. É um erro muito comum das pessoas acreditarem que aquele que faz mais barulho a se lamentar a favor do povo, seja o mais preocupado com seu bem-estar. E é exatamente isso que o senhor prefeito faz, aproveita o espaço que esse meio de comunicação lhe oferece, para demagogicamente apoiar-se em outras pessoas e tentar projetar sua carreira política, quando deveria governar para a população e não apenas para seus interesses de poder.
Os mais sinceros sentimentos à São Vicente do Sul me levam a desejar que o senhor prefeito ainda tenha tempo de fazer uma administração ao menos regular para o povo vicentense. Mas peço ao Sr. Martins que, por favor, respeite a memória de quem morreu trabalhando pelo município o qual ele também deve trabalhar, e não só sentar-se em uma cadeira e demagogicamente ficar se lamuriando. Seria demais pedir a quem já se habituou a embates com a justiça, que se cale e trabalhe com honra e respeito? Espero que não.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Um olhar
Um ser humano também pode ser estudado através das teorias do Behaviorismo. O fato de vermos todos os dias nos jornais notícias de violência nos faz tolerantes ao que nos acostumamos a ver. Assim como a mão de um trabalhador braçal, nossa estrutura cognitiva já endureceu, quando aparece o festival de notícias chocantes ainda conseguimos ao mesmo tempo rir e falar de amenidades. Relatarei aqui algo que me fez pensar sobre essa tolerância ao choque mental que tomamos diariamente, mas não no intuito de tornar admirável qualquer atitude, mas sim de refletir sobre as reações que presenciei.
À noite voltando para casa, fui abordado por um casal o qual me contaram - e a quem me acompanhava - uma estória. Eram de Porto Alegre e fazia 14 dias que estavam em Santa Maria, sem dinheiro e sem ter onde dormir, a não ser no local que se encostavam ao ter sono. O comportamento em relação às inúmeras notícias de violência já começou a manifestar-se no meu inconsciente, “Mas como vem do nada para uma outra cidade sem dinheiro no bolso?”. Então o ceticismo e, talvez outro sentimento, fez-me perguntar, mas porque vieram parar justamente aqui. Alegaram-me que vieram, pois conheceram um indivíduo que prometeu emprego ao rapaz, e assim ele convidou a sua companheira e venho em busca desse trabalho. Então, ofereci a única coisa que eu tinha na ocasião. Comida. Levei-os até a minha casa e servi um bom prato do que tinha, esquentei, e levei junto com um suco. Comeram e se foram.
Espero que o cuidado que estou tendo para não ser demagógico neste relato seja compreendido pelo leitor, pois a minha atitude não acrescenta em nada na vida e penso que seria o normal de todas as pessoas que conheço o fazer. O anormal é que me fez refletir. Pois, uma das pessoas que estava comigo, depois quando comentávamos, teve a reação de desconfiança, e logo veio a sua cabeça que se estavam com fome porque não foram pedir para limpar um pátio; outra pessoa que soube do ocorrido me chamou de louco, pois eu coloquei em risco a minha segurança. O medo da violência, que todos os dias vimos diante de nossa retina, explica essas reações, pois apesar de ser banal e já estarem acostumados a receberem notícias da violência, essa banalidade quando colocada em voga provoca um sentimento e uma atitude de auto proteção diante do problema.
Realmente, eu posso ter me colocado em uma situação arriscada. Porém, se há um sentimento e uma busca por fugir ao condicionamento que a sociedade nos coloca, é de que o homem deve tomar suas atitudes embasadas na consciência e no que acha correto. Ressalto que não sou socialista, apenas acredito que o mundo melhor existiria se cada indivíduo preocupasse consigo, e assim soubesse das suas obrigações e o que é o correto. Pois, somente um ser que é amoral ou, possui uma mente que margeia a racionalidade, pode não saber o que é correto e justo dentro de uma sociedade. Ajudei aquele cidadão porque acreditei na estória dele, e ele estava preocupado consigo e com sua parceira, então veio tentar fazer sua parte, veio procurar trabalho.
Os mais calejados podem dizer: “Ele pode ter te mentido?”. É verdade, ele poderia. Mas para finalizar, vale terminar o meu relato. Quando apareci com o prato de comida ele estava pedindo, a uma das pessoas que me acompanhava, um dinheiro para que pudesse dormir, todavia quando o rapaz e a moça viram o prato de comida, esqueceram na hora do dinheiro, e se alguém já viu um olhar de verdadeira felicidade sabe do que falo, pois eu vi nos olhos claros daquela jovem não só alegria e gratidão, mas sim um ser humano deixando cair a máscara de proteção que usamos contra a sociedade. Naquele momento os dois esqueceram os seus calos que adquiriram pelo mundo, e foram seres sinceros assim como uma criança.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
A minoria está maioria
Que há preconceito e sempre houve não é novidade, porém hoje em dia essa discussão está pouco interessante, haja vista que o conceito do “pré” é que está um tanto discutível. Como seria “pré”-conceito as avaliações sobre negros, índios e qualquer outra minoria se já está devidamente conceituado que elas são tudo o que deve ser defendido por todos.
Há algum tempo ouvi atônito em um programa da maior rede televisiva do Brasil, de uma atriz que faz novelas, a seguinte frase: “panelada de amor não dói”. Parece boba, mas a minha reação explica-se pelo fato de que essa não seja uma resposta, mas sim uma frase de protesto - camuflada como engraçadinha – após a pergunta de um espectador a uma delegada, sobre se há homens que vão até a delegacia da mulher, denunciar agressões sofridas por eles vinda de pessoas do sexo feminino. Ela respondeu que sim, realmente há agressões contra homens. Então, qual a responsabilidade moral de uma atriz em dizer que panelada de amor não dói?
Em primeiro lugar, essa atriz pressupôs que o instrumento de trabalho dos seres que são do seu mesmo sexo seja a panela. Além disso, e mais grave, analisa-se a covardia da declaração, pois no Brasil está na moda e é fácil defender as “minorias”, de modo que foi imposta uma política de cotas, e ter dinheiro e ser bem sucedido é feio, é pecado. Então porque a querida atriz não se calou, ou melhor, falou que as mulheres são tão fortes quanto os homens e podem sim dar paneladas, podem agredir e isso ser considerado, da mesma forma como com o homem, um erro? Não, ela preferiu se somar à maioria preconceituosa e “defensora das minorias”, atitude, que como acontece a uma criança mimada, leva aos que deviam ser punidos ficarem a cima das regras sociais.
Sempre haverá bondade, pois sempre haverá gente boa querendo defender e ajudar quem necessita, e isso é importante e admirável. Contudo quem consegue por suas mãos e suor ou pelos esforços de sua família vale menos que o mendigo bebendo atirado na calçada. Assim como há gente boa, há gente má, e, este mendigo pode ser bom ou mau, da mesma forma que o dono do carro blindado na sinaleira.
As pessoas quando pensam em ser ajudados, devem lembrar que os primeiros a ajudá-los são eles próprios. Essa cultura da espera por ajuda é a aspirina no câncer, haja vista que o mundo está condenado a ser dominado, simplesmente porque é mais fácil dominar conformados e bonzinhos que tomam paneladas e acham que merecem.
sábado, 10 de outubro de 2009
Enquanto houver Sonho
O hotel situava-se num bairro triste, era mais um entre aqueles prédios antigos e carcomidos pelos deletérios que o tempo causa. No térreo morava o velho que era o proprietário, e ali ficava a maior parte do dia. Ele somente saía para cobrar os três inquilinos semanalmente, pois apesar de serem moradores relativamente antigos, segundo ele declarava, não eram pessoas suscetíveis de confiança. O lugar possuía quatro quartos - ou seja, apenas um disponível para novos locatários - e no térreo um banheiro sujo, um quarto minúsculo, uma cozinha espaçosa e um hall com um sofá vermelho, uma cópia de Dali (o qual, ali, ninguém sabia) e um balcão na frente daquele senhor tão carcomido quanto o seu hotel. Os três moradores relacionavam-se somente no almoço, que era feito e servido pela única funcionária do estabelecimento. Mesmo assim o relacionamento resumia-se em “bom dia”, ou algumas indiretas sobre incômodos na data anterior.
Naquele domingo o horário do almoço anunciou uma mudança na tediosa rotina do lugar. O morador do quarto dois sentou-se à mesa apenas com a intenção de ironizar sobre o silêncio que tinha sido na noite anterior no quarto três, pois todas as noites vinham barulhos de prazer da porta da frente, os quais perturbavam o inquilino do dois. Mas Gilda não desceu, apesar da espera até as 15 horas do irônico vizinho. Não sabia ele que a noite chuvosa de sábado foi inspiradora para Gilda.
Era uma mulher de seus 45 anos, os quais a sua face demonstrava que estes não tinham lhe feito muito bem. Pele clara, pois não saía quase de dia, cabelos louros e tão grossos que mais pareciam os de um espantalho, as mãos e o rosto já eram carregados de rugas, porém ela cuidava de sua aparência. Sua sobrevivência exigia! E esta visita da velhice não lhe fazia bem, haja vista, que ela já deu sinais que veio para ficar. Por estar mal, resolveu não sair à noite, ficou no seu quarto funesto pensando e bebendo uma vodka de garrafa de plástico. O quarto não lhe era tão mal, aqueles móveis velhos e ainda aquele sofá furado já faziam parte de sua vida, tudo aquilo combinava com ela. Porém aquele dia tudo no quarto estava falando demais, parecia que queriam lembrar Gilda que ela não tinha conseguido algo, então ela resolveu mexer em seu velho baú que ficava sob a cama. Pensou: “Este me recordará o quanto valho”, e fez um movimento de levantar-se do sofá, mas a vodka queria que ali ela permanecesse sentada, a bebida não mandava nela tanto assim, no segundo esforço levantou-se e saiu trambolhando até a cama, então deitada na cama mesmo, puxou o baú e o abriu. Este sim sabia de sua vida, fez-lhe sorrir, fez-lhe gargalhar, fez-lhe suspirar; nesses anos ela tem algumas coisas que pode contar e se divertir. Porém o baú não percebeu e mostrou-lhe um papel com uns versos rabiscados. Gilda chorou. Até quem era de confiança, agora prega esta à mulher.
Então cansou de ser caçoada. Constatou que a chuva era forte, colocou uma blusa de gola rolê, pegou um guarda chuva, serviu um copo de vodka que tomou com um gole firme todo o líquido, pegou a garrafa de plástico com o resto de bebida e determinada caminhou rumo ao corredor do hotel. Passou pelo hall, o velho babava em cima de um jornal que se encontrava sobre o balcão, olhou o relógio e ele parece que sabendo de sua passada por ali badalou doze vezes, então se despediu do hotel e encarou a rua. Notou lugares e coisas que nunca tinha notado ao caminhar por lugares que todo o dia passava, falou baixinho “nunca reparei tanto em ti, rua. Tu que sempre foi minha companheira” e limpou mais uma lágrima que percorria a tez rugosa. De repente notou que instintivamente estava caminhando para a esquina aonde todas às noites ia, então ao passar por ali, no seu guarda chuva, escondeu-se das pessoas que via sempre (para ela esconder-se é que realmente teve serventia o objeto) e seguiu em frente.
Notou que estava sem rumo, tinha um objetivo, mas não rumo. Parou, secou a garrafa e pensou: “A construção inacabada!”, então para lá foi. Naquele lugar que muitas vezes fez meninos tornarem-se homens, velhos tornarem-se meninos, e deixou boa parte de sua vida. Então, sorrateiramente, entrou para não ser vista pelos vultos que ali habitavam e subiu até o décimo e último andar. Pensou melancolicamente, porém irredutível sobre o que ali viera fazer, chorou seu último pranto e antes de saltar falou:
- Então leve o resto da minha fracassada vida.
A noite de domingo também foi calma, para o alívio do vizinho do quarto de Gilda. Porém, não conseguiu dormir tentando descobrir onde diabos tinha se metido aquela puta que morava na frente do seu quarto. Segunda de manhã cedo antes de sair pra tomar café, foi perguntar ao senhor da portaria, se ele sabia daquela mulher imoral. Todavia, foi o velho que falou primeiro:
- Olhe aqui o jornal, a moradora do três se atirou do prédio inacabado - E balançou a cabeça negativamente de leve.
- Morreu? – Perguntou sem pensar o vizinho.
- Claro, foi do décimo andar.
Então o homem do balcão pegou um papel com um manuscrito e mostrando pro outro homem, disse pesarosamente:
- Achei em cima da cama dela assim que soube. Até que era boa pessoa – e depois de uma pausa, complementou. – Pagava em dia a semana do quarto.
O vizinho do quarto, sem prestar atenção no comentário do velho, leu o que dizia no papel, em silêncio guardo-o, e naquele momento viu que foi surpreendido, pois na sua frente morava um ser humano. Eis os versos que estavam escritos no papel:
“Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer nada
À parte disso tenho em mim todos os sonhos do mundo”.
P.s: Trecho do poema "Tabacaria" de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Asinus sum
Aqui, apenas agradeço a paciência de quem gastou seu tempo clicando até chegar neste espaço que reservei para descarregar toda a bobagem (para mim algumas vezes não são) que excede na minha cabeça. Pois um asno também tem um limite de carga possível de carregar, e aqui pretendo escrever sobre o que meus sentidos levam até a minha cabeça. Igual a um asno tenho meu limite de carga, e para que eu não empaque e siga galopando nessa condição, postarei alguns contos, crônicas...sei lá, textos que vazam da minha burrice.
Que fique claro que escrevo para mim, porém se alguém concordar ou discordar e quiser postar alguma mensagem, ficarei agradecido pelo tempo gasto em avaliar as minhas idéias, gildices e afins.
Até!
