quarta-feira, 21 de julho de 2010

Wado, o pedreiro amado.

Este texto na verdade é a segunda versão de um que eu havia escrito no final de 2008. Por acidentes da vida acabei perdendo-o. Todavia, nunca esqueci da estória, então hoje reescrevi. É interessante que minhas ideias mudaram e eu queria mudar algumas coisas devido ao tempo, mas por respeito ao que eu era segui com a mesma estória.


É ensurdecedor a cidade crescendo. É ininterrupto o crescimento da cidade. Quando já não suporta mais crescer horizontalmente ela não pára de crescer, a cidade invade os espaços verticalmente. Para isto: barulho, muito barulho! Britadeiras, paredes caindo, marteladas e vozes de homens que estão ali para construírem monumentos da arquitetura, palácios dos mais lucrativos negócios e fortalezas das mais “tradicionais” famílias, no entanto esses que constroem não convivem com o luxo e sim com o suor do que é erguer cada vez mais rápido as paredes. Os homens de verdade que dão vida a tijolos e cimento são pessoas invisíveis, e esse mundo é construído por pessoas invisíveis para outras que serão visíveis em alguma coluna social. Dentre essas pessoas que não aparecem está Wado.
A rotina de Wado é dura, acorda às cinco horas da manhã, lava a sua cara, toma seu café aguado e sai de casa rumo a alguma construção. No caminho, na condução, ele vai pensando na vida até cochilar. É um homem resignado com o seu trabalho, pode-se até dizer que de tanto tolerar, ele gosta do que faz. É ágil e competente, está ali para trabalhar e faz todo o serviço com extrema perícia. Talvez por trabalhar dessa maneira tenha poucos amigos, pois conversa pouco e os trata como parceiros apenas, participando muito pouco das conversas e comentários dos outros trabalhadores, pois acredita que está ali para desempenhar o seu ofício. Lazer ele deixa para outras horas. Ali ele usa só seus músculos e suas mãos fortes e rudes, a boca é para comer no intervalo e a cabeça para prestar a atenção nos perigos que a profissão lhe traz.
Esta rotina Wado cumpre de segunda a sexta religiosamente, como se fosse um relógio entra no trabalho, desempenha as suas funções até o almoço, descansa e segue trabalhando à tarde. Depois no final do expediente se despede dos colegas e vai para casa fazer a sua janta, ler e dormir. Wado não assistia à televisão exceto aos jogos do seu time. Aprendera ouvindo alguém falar que ler era muito mais útil do que assistir novela, além de que era o seu calmante depois de um dia de trabalho, então apenas lia. Pode-se pensar que a vida desse homem era um martírio, e ele era um motor produzido para levantar paredes, mas não. Wado era um motor mais eficiente em outras atividades, aqueles bate-bates das construções davam lugar a outros sons mais agradáveis.
Ele era filho de mãe mestiça, a qual era uma mistura de negro com índia, e de um pai alemão, o que somados resultou num homem de uma beleza exótica. Entre os pedreiros que eram na sua maioria de baixa estatura, destacava-se, pois media quase um metro e noventa. Tinha uma pele morena escurecida pelo sol, cabelos castanhos escuros e lisos, porém um pouco volumosos e, além de ser espadaúdo por natureza os anos de trabalho lhe davam um porte físico de atleta ou de escultura da renascença. Este belo rapaz, que vivia sozinho, vivia mergulhado numa frieza polar de espírito durante a semana, nos finais de semana usava uma parte do salário para se distrair em bares e casas noturnas do centro da cidade.
Era como se fosse mágica, toda aquela quietude no trabalho transformava-se numa voz grave e suave. Aquelas mãos grosseiras e duras do trabalho, quando tocava alguma mulher tocava com um misto de uma maciez e firmeza. Acontece que o criador quis que Wado fosse ou o encontro com o pecado, ou o encontro com o paraíso, pois ele mais que no ofício de pedreiro, fora feito para agradar as mulheres. Realmente era como mágica. Se fosse um homem comum seria chamado de mulherengo, mas não, havia algo que o absolvia dessa acusação, as mulheres sabiam do seu coração e acreditavam que ele era puro e, estava neste mundo para dar amor e, ele próprio para dar prazer. Por isso não poderia ser de ninguém.
O olhar de olhos azuis escuros já servia para apaixonar, porém o pedreiro esquecia da rudez de seu ofício e ao conversar com as moças trazia na voz uma gentileza, além de um cavalheirismo meio primitivo nos tratos que o faziam infalível, sem querer ser. O bate-bate das britadeiras e dos martelos dava lugar às batidas de sua cama na parede e as conversas dos outros pedreiros nem eram lembrados quando em seus ouvidos chegavam gemidos e gritos de muito prazer. Às vezes ocorria de alguma mulher perder a cabeça, mas Wado aconselhava e lembrava do seu ofício e de como não seria possível levá-lo a sério, outras vezes uma queria exclusividade, Wado a convencia que isso ele não poderia fazer, pois trabalhava muito e não teria tempo para isso, algumas com muito pesar entendiam que não poderiam o ter e desistiam. Absolutamente era mágica, um homem comum e invisível da semana, um ninguém no mundo dos homens, posicionava-se acima das convenções dos relacionamentos e, era capaz de com gentileza e virilidade tornar-se o dono do segredo que era o prazer completo.
Mas o perfeito não dura e o bem nunca fica longe do mal. Em uma sexta-feira o pedreiro chegou a sua casa e cumpriu a sua rotina de jantar, tomar banho, perfumar-se e arrumado sair pela cidade e escolher um lugar para dançar e conversar com uma dama. Quem acreditava que Wado era o Deus do sexo ou do amor se enganou, pois ele era homem, e, como homem fraquejou. Nesta noite entrou no bar escolhido e foi sentar em uma mesa. Pediu sua água com limão e encontrou em uma mesa à sua frente uma mulher de cabelos negros escorridos, caindo pelos ombros que com seus olhos grandes e castanhos amarelados lhe olhava como um leão analisa a presa. Wado nunca tinha sentido aquela estranheza, ele nunca tinha vacilado ao direcionar a sua fala a uma mulher, todavia aquele dia a moça teve que se levantar e ir até a sua mesa. O belo pedreiro custou a parar de olhar os lábios carnudos e molhados da bela que lhe fizera uma pergunta.

- Sim... pode sentar , sim – Respondeu ele em voz trêmula.

Pela primeira vez Wado não conduziu a conversa, os dois conversavam e riam como já se conhecessem há muito tempo. Isto o deixava assustado, mas era bom. E por ali permaneceram até a hora que o bar fechou. O que para o dono era novidade, já que ele conhecia o cliente e sabia que as vezes que o rapaz frequentara o seu estabelecimento saíra relativamente cedo com a sua companhia. Mas naquele dia foi tudo diferente, inclusive porque não foram para a casa de Wado, ele inventou uma desculpa, pois teve vergonha de mostrar a sua pequena e humilde casa à linda mulher. Wado estava apaixonado.
Não fizeram sexo, apenas dormiram porque ele não estava acostumado a beber. Então, quando acordou em outra casa teve uma sensação de vergonha, sentiu-se nu estando depois de muito tempo vestido com uma mulher na cama. Então, decidiu ir embora sorrateiramente, antes que a moça acordasse.
Wado trabalhou a semana inteira, mas não com a agilidade costumeira. Não parava de distrair-se e pensar nos olhos daquela cor que jamais houvera visto. A paixão o incomodava tanto que no final de semana não foi a lugar algum. Ficou em casa e até se escondeu quando uma admiradora apareceu para uma visita, pois ela havia estranhado a sua ausência. A semana de trabalho seguinte foi mais infernal ainda, não prestava atenção em mais nada e por pouco não teve um tijolo batendo com força em sua cabeça por falta de atenção.
“O que é isso?”, pensava ele. “O que posso fazer?”, se perguntava. Sexta-feira mais uma vez ficou em casa, e quando recebeu uma visita, abriu a porta e fez o sexo mais sem graça de toda a sua vida. A mulher que já conhecia Wado estranhou e, mais ainda quando ele a tratou grosseiramente e a mandou embora. Não dormiu no resto da noite e ficou pensando naquela mulher que mexera com ele. Então entendeu que estava amando-a.
No sábado à noite Wado saiu com o objetivo de encontrá-la e dizer o que estava sentindo. Para a sua tristeza não a encontrou naquele mesmo bar. Procurou em outros, foi indiferente com outras mulheres que vinham lhe falar, foi na casa da tal moça, ela não estava. Então, foi num lugar qualquer e bebeu aquela mesma bebida que bebera com ela. Mas a sorte, ou não, estava do lado do apaixonado rapaz, pois indo embora avistou uma mulher de cabelos negros saindo de um táxi. Era ela que vinha voltando de viagem. Então, sem jeito, ofegante, mas decidido Wado foi lhe falar. Após pouco menos de trinta minutos de conversa os dois se beijaram apaixonadamente, ela disse que já ouvira falar dele, por isso não o procurou, mas que também o amava. Foram para a casa dele e decidiram namorar.
A rotina de Wado mudou, depois de um mês foi morar na casa de sua namorada, que se chamava Catarine, assim morava mais perto das obras que trabalhava e, também fizeram um trato dele pegar menos trabalho para que tivesse mais tempo para outras atividades e para a namorada. Tudo estava indo muito bem, os dois pensavam em casar depois de um ano.
Numa noite Wado saiu do trabalho e foi até a sua antiga casa pegar algumas coisas que deixou, só não viu que lá estava uma mulher que o amava muito. Ela estava doente de amor e tomada de ódio, então o seguiu até o seu novo lar. O pedreiro amado estava saboreando do que é viver bem com quem se deseja, ele chegou em casa, tomou um banho e foi jantar com a sua amada, a harmonia parecia mudar a cor do ambiente. Então, depois de jantarem e conversarem Catarine e Wado beijaram-se, trocaram caricias e ali mesmo na sala começaram a fazer amor. Mas a felicidade às vezes inibe a atenção e, o homem na vontade de ver o seu amor entrou com as mãos ocupadas e só bateu a porta, não a fechando, assim jantaram e não lembraram mais de chavear. Então, a mulher, que o seguiu, com toda a insanidade que o amor pode causar a uma pessoa foi entrando e chegou até a sala onde os dois amantes estavam.
Wado teve o amor de várias mulheres, agora tinha três tiros nas costas e sangrava nos braços de Catarine, a única mulher que ele quis dar o seu amor. E ela chorava olhando o seu homem morto em frente a uma mulher assassina e suicida, não entendendo que Wado nascera para ser muito amado, mas que agora morria com a sina de não poder dar o seu amor.