Meus conhecimentos sobre psicologia são modestos, foram adquiridos através da minha busca e leitura. Sei, por exemplo, que Behaviorismo é um conjunto de teorias psicológicas que analisam o comportamento através da repetição de estímulos e das reações ou respostas. Ao colocarmos repetidas vezes em uma gaiola de um rato um queijo com um dispositivo que o dá choque, o animal depois da repetição terá um comportamento.
Um ser humano também pode ser estudado através das teorias do Behaviorismo. O fato de vermos todos os dias nos jornais notícias de violência nos faz tolerantes ao que nos acostumamos a ver. Assim como a mão de um trabalhador braçal, nossa estrutura cognitiva já endureceu, quando aparece o festival de notícias chocantes ainda conseguimos ao mesmo tempo rir e falar de amenidades. Relatarei aqui algo que me fez pensar sobre essa tolerância ao choque mental que tomamos diariamente, mas não no intuito de tornar admirável qualquer atitude, mas sim de refletir sobre as reações que presenciei.
À noite voltando para casa, fui abordado por um casal o qual me contaram - e a quem me acompanhava - uma estória. Eram de Porto Alegre e fazia 14 dias que estavam em Santa Maria, sem dinheiro e sem ter onde dormir, a não ser no local que se encostavam ao ter sono. O comportamento em relação às inúmeras notícias de violência já começou a manifestar-se no meu inconsciente, “Mas como vem do nada para uma outra cidade sem dinheiro no bolso?”. Então o ceticismo e, talvez outro sentimento, fez-me perguntar, mas porque vieram parar justamente aqui. Alegaram-me que vieram, pois conheceram um indivíduo que prometeu emprego ao rapaz, e assim ele convidou a sua companheira e venho em busca desse trabalho. Então, ofereci a única coisa que eu tinha na ocasião. Comida. Levei-os até a minha casa e servi um bom prato do que tinha, esquentei, e levei junto com um suco. Comeram e se foram.
Espero que o cuidado que estou tendo para não ser demagógico neste relato seja compreendido pelo leitor, pois a minha atitude não acrescenta em nada na vida e penso que seria o normal de todas as pessoas que conheço o fazer. O anormal é que me fez refletir. Pois, uma das pessoas que estava comigo, depois quando comentávamos, teve a reação de desconfiança, e logo veio a sua cabeça que se estavam com fome porque não foram pedir para limpar um pátio; outra pessoa que soube do ocorrido me chamou de louco, pois eu coloquei em risco a minha segurança. O medo da violência, que todos os dias vimos diante de nossa retina, explica essas reações, pois apesar de ser banal e já estarem acostumados a receberem notícias da violência, essa banalidade quando colocada em voga provoca um sentimento e uma atitude de auto proteção diante do problema.
Realmente, eu posso ter me colocado em uma situação arriscada. Porém, se há um sentimento e uma busca por fugir ao condicionamento que a sociedade nos coloca, é de que o homem deve tomar suas atitudes embasadas na consciência e no que acha correto. Ressalto que não sou socialista, apenas acredito que o mundo melhor existiria se cada indivíduo preocupasse consigo, e assim soubesse das suas obrigações e o que é o correto. Pois, somente um ser que é amoral ou, possui uma mente que margeia a racionalidade, pode não saber o que é correto e justo dentro de uma sociedade. Ajudei aquele cidadão porque acreditei na estória dele, e ele estava preocupado consigo e com sua parceira, então veio tentar fazer sua parte, veio procurar trabalho.
Os mais calejados podem dizer: “Ele pode ter te mentido?”. É verdade, ele poderia. Mas para finalizar, vale terminar o meu relato. Quando apareci com o prato de comida ele estava pedindo, a uma das pessoas que me acompanhava, um dinheiro para que pudesse dormir, todavia quando o rapaz e a moça viram o prato de comida, esqueceram na hora do dinheiro, e se alguém já viu um olhar de verdadeira felicidade sabe do que falo, pois eu vi nos olhos claros daquela jovem não só alegria e gratidão, mas sim um ser humano deixando cair a máscara de proteção que usamos contra a sociedade. Naquele momento os dois esqueceram os seus calos que adquiriram pelo mundo, e foram seres sinceros assim como uma criança.
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