sexta-feira, 12 de março de 2010

Sentinela

A velha rotina era a mesma quase todos os dias. O homem que fora funcionário público agora está aposentado e, apesar de ele não acreditar nisso, é um alcoólatra. É viúvo de um casamento infeliz o qual mesmo assim resultou um filho, este que não faz questão nenhuma de ver o pai, pois passaram a vida inteira brigando. Mas isso já não interessava para o homem, ele era satisfeito com a sua rabugice solitária e, quase todos os dias no início do crepúsculo dirigia-se ao bar.
Naquele dia fez o mesmo de sempre. Tomou um banho e caminhando tranquilamente desceu a rua para tomar a sua bebida. O dono do estabelecimento já sabia o que ele queria e onde ele gostava de sentar. Já estava tudo pronto como sempre. O homem era um observador, sentava na sua mesa e observava. Por isso, quando passou aquela moça de cabelos compridos e lisos de uma cor que os deixavam parecidos com uma cortina negra e brilhosa, ele já sabia que ela não estava perfumada somente por asseio. Então, maliciando falou a quem estava ali no bar:
- Alguém sabe a quem pertence esse perfume – e riu sarcasticamente.
O perfume pertencia a um morador do prédio da esquina, o qual a mulher era freqüentadora assídua de um centro religioso que existia nas proximidades, então a bela morena sabendo disso ia até o apartamento que lá se encontrava o marido sedento de prazer. Tinham uma hora de sexo pouco carinhoso, porque o amante ainda amava a sua mulher, porém a moça dos cabelos lindos o seduzira e realmente ela era uma insaciável. O “coitado” cedeu à tentação. E o observador homem sabia de tudo isso e mais, tanto que talvez com um pouco de inveja disse no bar:
- Ele aguenta porque sei o remedinho que ele compra na farmácia.
Ninguém lhe escutava, ele era um chato e arrogante, além de ser fofoqueiro. Então ali ele seguia na sua incansável tarefa de espião de ninguém. Sabia também do arcano que era guardado pelo garotão que sentado na sua motocicleta, expunha seus músculos como um pássaro que canta o canto do acasalamento. Não comentou nada com ninguém desta vez, pois achava que ninguém tinha inteligência o suficiente para ver as coisas como ele, no entanto, sabia que aquele símbolo da virilidade apenas fazia pose, pois tinha problemas com a sua ereção, e isto ele descobrira escutando uma moça contar a outra, em tom de segredo, entre as prateleiras do mercado.
Pediu mais uma bebida, a esposa traída passou para casa e um pouco a frente do bar se cruzou com a traidora e até se cumprimentaram, ele ria sozinho, se divertia. Não conversava com ninguém, mas se divertia se achando uma pessoa esperta que sabia da vida. Ele era assim, gostava de saber de tudo, falava mal do dono do bar que não sabia cuidar das suas finanças, falava mal do dono de uma loja que bebia demais ali no bar, para todos tinha um dossiê sujo na sua cabeça, e, assim ia passando seu tempo.
Naquela noite os acontecimentos que tinham que acontecer, aconteceram. Então aquele dia tinha terminado, pediu para o dono do bar anotar o que tinha bebido, já estava bêbado, mas pegou mais alguma para beber em casa. Então, levantou-se e sem se despedir de ninguém foi embora, pois ainda tinha mais outros e outros dias para ele, sentado, observar a vida passar.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Retorno à escrita

A falta de tempo é uma grande adversária da escrita, e no meu caso ela tinha encontrado uma aliada, a preguiça mental.
Porém, surpreendentemente a escrita se aliou a algumas adversidades e a inspiração ou vitória da escrita, como preferirem, aconteceu.
Azar é de quem ler. Comentários são bem vindos...SEMPRE!

Da morte à vida

4 de março de 2010

Quando ele abre os olhos ao acordar nem pensa sobre a vida, sua mente já está automaticamente induzida a pensar o mesmo que pensa todos os dias. Abre os olhos assustado. Assimila que tem que desligar o despertador, desliga. Levanta e se espreguiça. Do escovar os dentes até a saída pela porta a rotina é precisamente a mesma. Se alguém dissesse que ele faz dormindo, poderia se acreditar.
Até o caminho ao trabalho é o mesmo, exceto pelo tempo que é mais original que ele próprio, muda às vezes. Os cumprimentos, as piadas, as risadas e até mesmo as xingadas do patrão se repetem. Invariavelmente, de segunda a sexta acontecia a mesma coisa. E durante todo esse tempo o que ele mais aguardava era o sábado e o domingo, como se fosse fazer algo extraordinário.
O sábado e o domingo sempre chegavam. E daí? Nada! No sábado locava um filme, muitas vezes algum clássico, quase sempre algum clássico, pois não queria arriscar de locar alguma novidade, e perder o seu precioso tempo assistindo alguma porcaria. Algumas vezes fazia uma janta, em outras encomendava uma pizza, mas sempre tomava um porre pela madrugada adentro. Era um homem de boa cultura, pois lia bastante, aliás, era até inteligente, todavia não a usava muito, a não ser nessas madrugadas de sábado para domingo que desvendava os problemas mundanos e sociais...para ele mesmo. Então dormia. No domingo, de ressaca, acordava, arrumava a bagunça da noite anterior, comia o resto da comida e recomeçava antecipadamente o martírio semanal, pois a partir do marasmo que é o domingo ele já começava a penar pensando na semana que viria.
Ele já vivera de outra maneira, mas alguém que manda em tudo lhe tirou peças importantes para sua vida ser algo empolgante e feliz. Aos poucos, devido a certas ausências o rapaz foi mudando, foi tornando-se insuportável e o mundo foi virando “um cara” medíocre e chato. As mudanças foram tão naturais que ele nem notou, a tristeza, que aparecera como um fugitivo que entra de abrupto procurando abrigo, se acomodou de tal forma com a sua hospitalidade, que quando a alegria foi embora levando sua bagagem, ele nem notou. Esqueceu que um dia ela o habitara.
Assim viveu anos e, isso não o incomodava, pois algo aconteceu cognitivamente com ele que esquecera totalmente como viver de outra forma. Era uma pessoa neutra, vivia porque tinha que viver, ou melhor: sobrevivia.
Mas a vida é inexplicável, é soberana. Seus ventos mudam sem aviso prévio e sem que possamos entender os motivos, lá no final ela deve apresentar as justificativas para os seus caprichos. Possivelmente, por isso certo dia ele abriu os olhos e pensou sobre a vida - tinha tido uma noite esquisita, agitada, desligou o despertador e seguiu pensando na vida. Não se espreguiçou e foi escovar os dentes, pensando, mas na frente do espelho concluiu os seus pensamentos. Sorriu, e fazia tempo que aquele espelho não refletia um sorriso, então se escovou, vestiu-se e foi rumo ao prédio onde trabalhava.
No prédio, entrou, sorriu ao porteiro que estranhou esse comportamento e mais ainda porque vinte minutos depois ele desceu com cara de alegre e deu um “Tchau!”.
Ele foi viver!

Da vida à felicidade

4 de março de 2010

Seu nome era Carlos e não se sabe a razão, mas naquela manhã estava gostando do seu nome, repetia, “Carlos! Carlos!” enquanto caminhava decidido pela rua. Carlos estava voltando de onde tomou uma decisão determinante em sua vida, e, completamente entorpecido por um sentimento que não sabia qual era, voltava para casa.
Chegou em casa fez uma mala não muito grande, procurou algum número que estava na sua lista de telefones e anotou em um papel, colocou a anotação na carteira, colocou no bolso, pegou a mala, trancou o apartamento e se mandou para resolver pequenas coisas no banco. Quatro horas da tarde, ele já estava dentro de um ônibus que levava a uma cidade bastante distante. A cabeça de Carlos rodava muito mais rápido que os pneus do ônibus e, ele sorria, ele ria, ele gargalhava, por quê? Não conseguia calcular o tamanho da sua atitude. Cada vez que pensava que era loucura, pensava “Ah! Às favas!” e pensava em outras coisas, ou deliciava-se com o vento que empurrava sua cabeça contra o banco. Ouviu vozes:

- Fecha essa janela, imbecil!

E ele sorria e pensava “É, eu realmente sou um imbecil”.

Já havia rodado quilômetros, já haviam passado muitas horas quando ele chegou naquela cidade tipicamente do interior, pela janela Carlos via alguns moradores e não tinha como não reparar na cara de inocência, na cara de quem vive bem a vida simples daquela gente. Ele respirava fundo, e cada vez mais tinha certeza de que estava fazendo a coisa certa. Desceu na rodoviária, pegou a bagagem e decidiu ir a pé até o seu destino. Divertia-se cumprimentando as pessoas que lhe respondiam, porém com uma cara de que não tinham certeza se conheciam aquele homem. Um velho chegou a virar para trás e o reconheceu, mas quando teve certeza Carlos já ia longe.
Aquela senhora quando abriu a porta não estava preparada para ver Carlos assim, tão surpreendentemente. Quase que tudo se estragou. Passado vinte minutos de recuperação o filho conseguiu recuperar a mãe que estava radiante de felicidade e, só abraçava e beijava a sua cria. “Eu sou um imbecil mesmo”, pensava ele, “poderia ter vindo aqui mais vezes” e ia desafogando a velha da sua inundação de alegria.
A mãe de Carlos era viúva e agora tinha além dele outro filho que morava numa cidade próxima, e a visitava seguidamente. Mas além de fazer tanto tempo que não o via, este era o seu filho mais novo, o que por morar longe deveria sofrer mais. Passado o momento do frenesi da chegada, começaram as perguntas, no entanto Caio – assim que ela o chamava, pois ele se autoapelidara por não saber pronunciar o nome quando era bebê – fugia das perguntas dizendo que estava com fome e cansado, depois responderia com calma. Comeu e foi dormir na sua cama de quando ainda era adolescente.
Ao acordar, pensando em como era bom estar ali, sentiu cheiro de comida. A mesa já estava posta e, mal chegou, a mãe já começou a tagarelar. Os vizinhos e as tias de segundo, terceiro e quarto graus já sabiam da visita. Carlos mal ouvia. Parou só quando ela disse:

- Liguei para o seu irmão, sabe como ele é...não falou quase nada, mas disse que no final de semana vem te ver.

- No final de semana já não estarei mais aqui, mãe. Vou abrir um negócio na praia de Paradiso – Falou Carlos.

A empolgada a velhinha parou o que estava fazendo e olhou Carlos com um olhar de quem não acreditava. Mas logo depois dessa reação, notando que o filho não ficara confortável, mudou o tom e perguntou mais descontraída:

- Mas e o seu trabalho lá na cidade?

- Larguei – Ele respondeu ao beliscar a comida que ela servia, e logo depois fez um gesto para que ela não se preocupasse.

Comeram tranquilamente. Na janta lembraram coisas do passado, riram das molecagens e das brincadeiras “desses guris” como dizia ela. Tudo correu bem, a harmonia parecia perfumar o ambiente. Foram até tarde conversando, até que a velha adormeceu. Carlos a acordou e ela foi dormir na cama. Ele tomou mais algumas taças de vinho e foi dormir também. O irmão de Carlos achou muito ruim a atitude do irmão, que ao sair pela manhã só deixou um bilhete avisando que fora embora sem ao menos se despedir, sem falar na atitude de largar o emprego para se aventurar em um negócio incerto.
Mas Carlos queria aventura mesmo. Chegou à praia e a primeira coisa que fez, foi comprar uma moto possante, pois sempre sonhara ter uma - porém as pessoas o censuravam. Então após abrir o seu negócio ele seria seu chefe e sairia a viajar por onde quisesse. Em busca desse objetivo, passado um mês no local Carlos estava com o seu bar de portas abertas, pois ele tinha economias. O que vendia já lhe sustentava sem luxos e, foi assim, sem preocupações, por anos. Todos gostaram do seu jeito, meio sério, meio divertido, “ele parece que sorri para tirar o atrasado” disse um cliente.
E passou um ano desde a abertura do bar Ventura. O bar ia bem porque o dono estava bem, e o dono não precisava de muito lucro, ele precisava outra coisa. E aconteceram várias! Carlos teve muitos amigos, viveu paixões, riu, chorou, abraçou sinceramente e tudo como alguém que encontra água no deserto e pensa só em beber. “Eu sou um imbecil” dizia ele gargalhando aos amigos quando estava bêbado.
Passou pouco mais de um ano, e uma “ardência” que havia tempos incomodava seu coração agora ficara insuportável. Carlos tinha que ver a sua mãe e seu irmão, era tempo disso. Talvez propusesse que viessem visitá-lo? Não, ele pegaria sua moto e iria dessa vez. Ligou para o seu irmão e combinou.
De manhã cedo pegou a sua moto e encarou a estrada. O encontro da família não poderia ser melhor. O irmão de Carlos ficou meio desconfiado à primeira impressão pelo seu sustento, mas depois esqueceu por ver como o irmão estava bem, até pediu conselhos e prometeu que iria levar a mãe, mulher e filhos deles lá "na sua praia", e, noutra vez iria sozinho. Diante de tudo isso a realização da mãe era plena por ver que a sua vida estava novamente se encaminhando como ela pedira nas orações. Na última noite os dois irmãos beberam bastante, confraternizaram e saudaram a vida que estavam levando. Já era tarde quando o irmão dele se despediu, pois um dos filhos chorava e a esposa o chamava. Carlos tomou mais meia garrafa de vinho e decidiu não cumprir o que tinha prometido, depois que abriu o Ventura aprendeu a confiar em si, e achou que se saísse aquela hora ainda chegava para abrir o bar em um horário bom para a clientela. Deixou mais uma vez um bilhete, o irmão até escutou o ronco do motor da motocicleta, mas achou que ele fosse pegar mais vinho e não se levantou.
No outro dia o Ventura não abriu, o irmão recebeu a notícia antes mesmo de ler o bilhete e, uma parte da mãe de Carlos morreu também.
Mas apesar da tristeza que obrigatoriamente restou, com o capacete aberto e o vento na cara, Carlos sorria quando apareceu aquele carro sem luz. Naquele momento ele pensava:

- Eu não sou um imbecil, eu conheci a felicidade!