quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Ainda Tropa 2

Quando o Estado interfere diretamente na família é porque alguma coisa está mudando:

http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=Geral&newsID=a3105768.xml

"Que minha família não parece tão familiar
E que todos meus inimigos sabem meu nome (...)
Melhor ficar de joelhos e rezar, o pânico está a caminho."

Noel Gallagher - Trecho da música Gas Panic

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Para quem assistiu o Tropa ... 2

Acessem o link no Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=KOKS_apCwzA&feature=player_embedded

Alguém consegue relacionar esse vídeo com o filme?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2

Poderia escrever agora um comentário sobre o filme que acabei de assistir, no entanto, tenho o prazer de dizer que não será possível. Escrevo esse post somente para não passar em branco, pois, creio que "Tropa de Elite 2" é um filme que não permite o silêncio, a não ser o do choque.
No momento, apenas escrevo este pequeno texto, pois, estou incubando e refletindo sobre o que foi visto. Acredito que posteriormente escreverei minhas considerações mais detalhadas. Fica aqui a minha indicação para que assistam o filme. Ele mostra muitas coisas que acontecem - e algumas têm a ver com o que penso e até foi comentado neste blog - e ninguém havia tido a coragem de mostrar desse jeito.
"Tropa de Elite 2" é a nudez do sistema, o qual é muito feio peladão. Só espero que as pessoas discutam e entendam o sentido do filme.
Recomendo: assistam e tirem as suas conclusões, sendo as suas ideias bem vindas aqui.

Aí vai o link do trailer para quem não assistiu:

http://www.youtube.com/watch?v=gsZP9ZX3fsI

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O CQC e a Política

Você está chocado porque o Tiririca se elegeu? Mas você também senta em frente à TV todas as segundas-feiras e, acha de grande importância o que o programa CQC faz ao país? Pois então, fique sabendo que você é uma discrepância ambulante. O programa é engraçado, eu assisto e rio, no entanto, comecei a me dar conta do quão nocivo é à política e à democracia nacional.
Este programa da Band é muito bem feito, é o programa que trata de política, seguramente, mais assistido por jovens no Brasil. Por isso, sua responsabilidade deve ser elevada, haja vista, que seus telespectadores são eleitores. Não defendo que haja censura ao CQC. De maneira nenhuma! O programa é importante para peitar os políticos com perguntas que a mídia “séria” não faria. Esse é o motivo pelo qual eu admiro e gosto de sentar-me sintonizado na Band às segundas, porém comecei a notar algo prejudicial à política.
Os repórteres do programa tentam pressionar os políticos, de maneira que sejam pegos numa saia justa, para assim em frente às câmeras revelarem o que realmente são e, ficava camuflado atrás dos seus discursos inflamados. Porém, muitas vezes essa saia justa é covarde e mesmo se o político não tem nada a dever acaba por ser ridicularizado. Veja bem, há bons políticos e maus políticos, assim como há política e há politicagem. O que os maus políticos fazem não pode se sobrepor e cobrir o que os bons fazem ao país. E é isto exatamente o que o CQC faz, pois nunca vi ser apresentada uma solução ou, ser mostrado algo de bom feito pelas pessoas que administram publicamente o nosso país. Deveria ter espaço tanto para mostrar o certo quanto o errado.
O telespectador desinformado pode não acreditar, mas existem sim coisas boas. Para começar, tente lembrar em quem você votou, e, procure informações do que ele tem feito para compensar o seu voto. Não fez nada? Procure outro que tenha feito, pois há. Se eu achei você também consegue. O que não pode é buscar informação somente no programa do Sr. Marcelo Taz. Pois chego à conclusão que a finalidade daquele programa é ridicularizar gratuitamente a política nacional, fazendo com que haja um descrédito doloso à democracia e ao processo eleitoral.
Portanto, ser politizado não é falar mal de políticos e sim, sabendo da importância da política, procurar escolher os candidatos certos e depois vigia-los. Agora, por exemplo, o Sr. Danilo Gentili irá à Brasília ridicularizar o Excelentíssimo Tiririca? Mas, ele não se incomodará, afinal ele é um palhaço e, ainda, um símbolo vivo do que o brasileiro pensa sobre a política. No entanto, depois quando nos dermos conta que estamos desperdiçando um direito que outrora outros lutaram para conseguir, quem ao se olhar no espelho verá refletido um nariz vermelho em sua face?

“Quem não se ocupa de política já tomou a decisão política de que gostaria de se ter poupado: serve ao partido dominante.” Frisch, M.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Wado, o pedreiro amado.

Este texto na verdade é a segunda versão de um que eu havia escrito no final de 2008. Por acidentes da vida acabei perdendo-o. Todavia, nunca esqueci da estória, então hoje reescrevi. É interessante que minhas ideias mudaram e eu queria mudar algumas coisas devido ao tempo, mas por respeito ao que eu era segui com a mesma estória.


É ensurdecedor a cidade crescendo. É ininterrupto o crescimento da cidade. Quando já não suporta mais crescer horizontalmente ela não pára de crescer, a cidade invade os espaços verticalmente. Para isto: barulho, muito barulho! Britadeiras, paredes caindo, marteladas e vozes de homens que estão ali para construírem monumentos da arquitetura, palácios dos mais lucrativos negócios e fortalezas das mais “tradicionais” famílias, no entanto esses que constroem não convivem com o luxo e sim com o suor do que é erguer cada vez mais rápido as paredes. Os homens de verdade que dão vida a tijolos e cimento são pessoas invisíveis, e esse mundo é construído por pessoas invisíveis para outras que serão visíveis em alguma coluna social. Dentre essas pessoas que não aparecem está Wado.
A rotina de Wado é dura, acorda às cinco horas da manhã, lava a sua cara, toma seu café aguado e sai de casa rumo a alguma construção. No caminho, na condução, ele vai pensando na vida até cochilar. É um homem resignado com o seu trabalho, pode-se até dizer que de tanto tolerar, ele gosta do que faz. É ágil e competente, está ali para trabalhar e faz todo o serviço com extrema perícia. Talvez por trabalhar dessa maneira tenha poucos amigos, pois conversa pouco e os trata como parceiros apenas, participando muito pouco das conversas e comentários dos outros trabalhadores, pois acredita que está ali para desempenhar o seu ofício. Lazer ele deixa para outras horas. Ali ele usa só seus músculos e suas mãos fortes e rudes, a boca é para comer no intervalo e a cabeça para prestar a atenção nos perigos que a profissão lhe traz.
Esta rotina Wado cumpre de segunda a sexta religiosamente, como se fosse um relógio entra no trabalho, desempenha as suas funções até o almoço, descansa e segue trabalhando à tarde. Depois no final do expediente se despede dos colegas e vai para casa fazer a sua janta, ler e dormir. Wado não assistia à televisão exceto aos jogos do seu time. Aprendera ouvindo alguém falar que ler era muito mais útil do que assistir novela, além de que era o seu calmante depois de um dia de trabalho, então apenas lia. Pode-se pensar que a vida desse homem era um martírio, e ele era um motor produzido para levantar paredes, mas não. Wado era um motor mais eficiente em outras atividades, aqueles bate-bates das construções davam lugar a outros sons mais agradáveis.
Ele era filho de mãe mestiça, a qual era uma mistura de negro com índia, e de um pai alemão, o que somados resultou num homem de uma beleza exótica. Entre os pedreiros que eram na sua maioria de baixa estatura, destacava-se, pois media quase um metro e noventa. Tinha uma pele morena escurecida pelo sol, cabelos castanhos escuros e lisos, porém um pouco volumosos e, além de ser espadaúdo por natureza os anos de trabalho lhe davam um porte físico de atleta ou de escultura da renascença. Este belo rapaz, que vivia sozinho, vivia mergulhado numa frieza polar de espírito durante a semana, nos finais de semana usava uma parte do salário para se distrair em bares e casas noturnas do centro da cidade.
Era como se fosse mágica, toda aquela quietude no trabalho transformava-se numa voz grave e suave. Aquelas mãos grosseiras e duras do trabalho, quando tocava alguma mulher tocava com um misto de uma maciez e firmeza. Acontece que o criador quis que Wado fosse ou o encontro com o pecado, ou o encontro com o paraíso, pois ele mais que no ofício de pedreiro, fora feito para agradar as mulheres. Realmente era como mágica. Se fosse um homem comum seria chamado de mulherengo, mas não, havia algo que o absolvia dessa acusação, as mulheres sabiam do seu coração e acreditavam que ele era puro e, estava neste mundo para dar amor e, ele próprio para dar prazer. Por isso não poderia ser de ninguém.
O olhar de olhos azuis escuros já servia para apaixonar, porém o pedreiro esquecia da rudez de seu ofício e ao conversar com as moças trazia na voz uma gentileza, além de um cavalheirismo meio primitivo nos tratos que o faziam infalível, sem querer ser. O bate-bate das britadeiras e dos martelos dava lugar às batidas de sua cama na parede e as conversas dos outros pedreiros nem eram lembrados quando em seus ouvidos chegavam gemidos e gritos de muito prazer. Às vezes ocorria de alguma mulher perder a cabeça, mas Wado aconselhava e lembrava do seu ofício e de como não seria possível levá-lo a sério, outras vezes uma queria exclusividade, Wado a convencia que isso ele não poderia fazer, pois trabalhava muito e não teria tempo para isso, algumas com muito pesar entendiam que não poderiam o ter e desistiam. Absolutamente era mágica, um homem comum e invisível da semana, um ninguém no mundo dos homens, posicionava-se acima das convenções dos relacionamentos e, era capaz de com gentileza e virilidade tornar-se o dono do segredo que era o prazer completo.
Mas o perfeito não dura e o bem nunca fica longe do mal. Em uma sexta-feira o pedreiro chegou a sua casa e cumpriu a sua rotina de jantar, tomar banho, perfumar-se e arrumado sair pela cidade e escolher um lugar para dançar e conversar com uma dama. Quem acreditava que Wado era o Deus do sexo ou do amor se enganou, pois ele era homem, e, como homem fraquejou. Nesta noite entrou no bar escolhido e foi sentar em uma mesa. Pediu sua água com limão e encontrou em uma mesa à sua frente uma mulher de cabelos negros escorridos, caindo pelos ombros que com seus olhos grandes e castanhos amarelados lhe olhava como um leão analisa a presa. Wado nunca tinha sentido aquela estranheza, ele nunca tinha vacilado ao direcionar a sua fala a uma mulher, todavia aquele dia a moça teve que se levantar e ir até a sua mesa. O belo pedreiro custou a parar de olhar os lábios carnudos e molhados da bela que lhe fizera uma pergunta.

- Sim... pode sentar , sim – Respondeu ele em voz trêmula.

Pela primeira vez Wado não conduziu a conversa, os dois conversavam e riam como já se conhecessem há muito tempo. Isto o deixava assustado, mas era bom. E por ali permaneceram até a hora que o bar fechou. O que para o dono era novidade, já que ele conhecia o cliente e sabia que as vezes que o rapaz frequentara o seu estabelecimento saíra relativamente cedo com a sua companhia. Mas naquele dia foi tudo diferente, inclusive porque não foram para a casa de Wado, ele inventou uma desculpa, pois teve vergonha de mostrar a sua pequena e humilde casa à linda mulher. Wado estava apaixonado.
Não fizeram sexo, apenas dormiram porque ele não estava acostumado a beber. Então, quando acordou em outra casa teve uma sensação de vergonha, sentiu-se nu estando depois de muito tempo vestido com uma mulher na cama. Então, decidiu ir embora sorrateiramente, antes que a moça acordasse.
Wado trabalhou a semana inteira, mas não com a agilidade costumeira. Não parava de distrair-se e pensar nos olhos daquela cor que jamais houvera visto. A paixão o incomodava tanto que no final de semana não foi a lugar algum. Ficou em casa e até se escondeu quando uma admiradora apareceu para uma visita, pois ela havia estranhado a sua ausência. A semana de trabalho seguinte foi mais infernal ainda, não prestava atenção em mais nada e por pouco não teve um tijolo batendo com força em sua cabeça por falta de atenção.
“O que é isso?”, pensava ele. “O que posso fazer?”, se perguntava. Sexta-feira mais uma vez ficou em casa, e quando recebeu uma visita, abriu a porta e fez o sexo mais sem graça de toda a sua vida. A mulher que já conhecia Wado estranhou e, mais ainda quando ele a tratou grosseiramente e a mandou embora. Não dormiu no resto da noite e ficou pensando naquela mulher que mexera com ele. Então entendeu que estava amando-a.
No sábado à noite Wado saiu com o objetivo de encontrá-la e dizer o que estava sentindo. Para a sua tristeza não a encontrou naquele mesmo bar. Procurou em outros, foi indiferente com outras mulheres que vinham lhe falar, foi na casa da tal moça, ela não estava. Então, foi num lugar qualquer e bebeu aquela mesma bebida que bebera com ela. Mas a sorte, ou não, estava do lado do apaixonado rapaz, pois indo embora avistou uma mulher de cabelos negros saindo de um táxi. Era ela que vinha voltando de viagem. Então, sem jeito, ofegante, mas decidido Wado foi lhe falar. Após pouco menos de trinta minutos de conversa os dois se beijaram apaixonadamente, ela disse que já ouvira falar dele, por isso não o procurou, mas que também o amava. Foram para a casa dele e decidiram namorar.
A rotina de Wado mudou, depois de um mês foi morar na casa de sua namorada, que se chamava Catarine, assim morava mais perto das obras que trabalhava e, também fizeram um trato dele pegar menos trabalho para que tivesse mais tempo para outras atividades e para a namorada. Tudo estava indo muito bem, os dois pensavam em casar depois de um ano.
Numa noite Wado saiu do trabalho e foi até a sua antiga casa pegar algumas coisas que deixou, só não viu que lá estava uma mulher que o amava muito. Ela estava doente de amor e tomada de ódio, então o seguiu até o seu novo lar. O pedreiro amado estava saboreando do que é viver bem com quem se deseja, ele chegou em casa, tomou um banho e foi jantar com a sua amada, a harmonia parecia mudar a cor do ambiente. Então, depois de jantarem e conversarem Catarine e Wado beijaram-se, trocaram caricias e ali mesmo na sala começaram a fazer amor. Mas a felicidade às vezes inibe a atenção e, o homem na vontade de ver o seu amor entrou com as mãos ocupadas e só bateu a porta, não a fechando, assim jantaram e não lembraram mais de chavear. Então, a mulher, que o seguiu, com toda a insanidade que o amor pode causar a uma pessoa foi entrando e chegou até a sala onde os dois amantes estavam.
Wado teve o amor de várias mulheres, agora tinha três tiros nas costas e sangrava nos braços de Catarine, a única mulher que ele quis dar o seu amor. E ela chorava olhando o seu homem morto em frente a uma mulher assassina e suicida, não entendendo que Wado nascera para ser muito amado, mas que agora morria com a sina de não poder dar o seu amor.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Detalhes talvez não sejam tão insignificantes

Há tempos penso sobre a interligação dos fatos na minha vida. Essa cena tira as palavras do meu pensamento. Uns chamam de destino, outros preferem dizer que é coincidência. Eu simplesmente não sei, sei que é definitivo.



segunda-feira, 31 de maio de 2010

"Tempo tem quem dá"

Tudo na vida precisa de tempo. Um minutinho, um segundinho, pouco tempo, muito tempo, uma eternidade...Por isso as palavras desse ótimo compositor da música brasileira são sábias. Rodrigo Amarante do Los hermanos diz que "tempo tem que dá", e concordo.
Portanto, este texto que aqui está, existe simplesmente para justificar o tempo que ficarei sem escrever, postar, etc. Minha vida prática precisa de tempo, pois de ideias e gildices debaixo da ponte está cheio e, quem sabe depois que eu der esse tempo eu ganhe mais tempo para jorrar as minhas palavras fiadas e moles.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

12 de Maio de 2009: que ignorância!!!!!!

Esta data não poderia deixar de ser lembrada. Há exatamente um ano atrás...e ainda arrepia.

http://www.youtube.com/watch?v=-mF4r7-FiWU

P.s: Não consegui postar a porra do Vídeo, mas aí está o linck.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Uma testemunha da situação

Talvez, essa denúncia explique o porquê de nós sermos tão desinformados a respeito do que realmente acontece na sociopolítica nacional, e, claro, ao nosso redor e não podemos saber.



Acho muito sem graça o programa deste cidadão, mas também esta denúncia pode absolvê-lo, junto com seus colegas e equipe de produção. Pois, coitados, fazem as piadas que o "rei" deixa.

sábado, 24 de abril de 2010

O que parece ninguém quer ver

Há coisas que parecem ser esquecidas, e também parece que ninguém tem coragem ou vergonha na cara de falar. Esta gravação não foi ao ar. Por quê? Adivinhem.



É válido salientar que não sou e nunca fui eleitor do Serra. Mas muito menos serei dessa turma citada pelo ator.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O que pode ser maior que a amizade?

A cidade naquele tempo ainda tinha calçamento só nas ruas principais. Era uma típica cidadezinha do interior, igual a qualquer outra. Praça rodeada pela Igreja, Correio, Banco e algum comércio. Os moradores, é claro, não eram os mesmos de outras cidades, mas os assuntos e as fofocas não os deixavam muito diferentes. Aquele lugar, para alguns, se não era o fim do mundo estava no caminho, porém para outros era o próprio paraíso. Para Saulo e Vilsinho era até mais que o paraíso.
Os dois meninos nasceram naquele lugar e ali descobriram as melhores sensações da vida, aquelas que a pessoa vive na infância e adolescência e por serem entremeadas por tantos outros bons momentos não passam de acontecimentos fugazes que depois são lembrados muitas vezes com saudade por toda a vida. Eram vizinhos, tinham quase a mesma idade, Saulo era um ano e meio mais velho que Vilsinho e por isso mantinha uma natural liderança entre a dupla, apesar do mais novo sempre dar demonstrações de que era mais esperto no colégio, pois eram colegas já que Saulo era repetente e, também na vida. Esse entrosamento permaneceu até os 17 anos e meio completados de Saulo, pois depois, exceto por algumas cartas no início, não mantiveram mais contato, devido ao o pai de Vilsinho ter sido promovido e fora morar na capital levando a família, naturalmente. Saulo continuou ali, respirando o mesmo ar de sempre e como sempre vivia feliz, pois era aquilo que conhecia e o satisfazia. Havia casado e tinha um filho de três anos.
Naquela manhã ele ficou ainda mais contente quando no meio de suas correspondências avistou uma carta com aquela letra que reconhecera um pouco melhor, mas que era aquela mesma de vários anos de estudos e, é claro, de muitas colas passadas. Então, ao ler o remetente confirmou com euforia que sim, era o seu amigo que após muitos anos voltava a se comunicar. A felicidade transformou-se em euforia quando ao ler soube que no final de semana o seu velho amigo faria uma visita breve à cidade. Entrando em casa, já foi logo falando em voz alta para a mulher que estava na cozinha:

- Meu amor, lembra do Vilsinho? Meu amigo de infância... - falava quando foi interrompido pela mulher.

- Não fala tão alto, Saulo, o menino está doente e faz pouco, pegou no sono.

Então, ele ao chegar à cozinha recomeçou em tom mais brando.

- O Vilsinho, lembra? Ele me mandou esta carta e disse que vem me visitar no final de semana, vamos fazer um bom jantar para ele e, daí como ele disse que está de férias se insistirmos quem sabe ele fica mais um tempo.

E ficou uma boa meia hora falando sem parar no amigo à mulher. Só parou porque ela não se mostrava muito empolgada e disse que viajaria com o bebê para a casa da mãe dela que estava de aniversário, mas que entendia a situação e não se importaria se ele ficasse para recepcionar o amigo.
Aquela semana foi toda assim, Saulo contando feliz que o velho amigo lhe escrevera e viria visitá-lo. Repetia que o Vilsinho sempre fora uma pessoa fiel, educada, inteligente e humilde. Muitos conheciam e lembravam-se do antigo colega e sabiam que realmente ele era uma boa pessoa, mas Saulo parecia que a cada ano que passara ele aumentara a admiração pelo amigo.
Então chegou sábado, Vilson chegaria às 17 horas e 10 minutos de ônibus. Saulo pensava: “É um homem humilde, deve estar bem, mas prefere vir de ônibus para não parecer arrogante”. Enquanto se vestia, lembrava de como Vilsinho não era egoísta e, emprestava seus melhores brinquedos, pois o pai de Saulo não tinha tantas posses como o do amigo. Ria ao lembrar-se do cavalheirismo do companheiro com as meninas e, quantas ele havia conseguido dar uns beijos devido à “ajudinha” retórica desse menino que agora era um homem, pois nem parecia, mas havia passado 14 anos. Terminou de se arrumar e foi à rodoviária buscar o grande amigo.
Vilsinho sempre fora mais baixinho que Saulo, além de ser mais introspectivo que o amigo, que era engraçado e agradável com todos. Vilsinho pensava e Saulo que era mais sociável e tinha mais facilidade de comunicação colocava em prática. Uma dupla e tanto. Por isso que quando um homem alto e espadaúdo, com cabelos negros e lisos, que por serem vastos dava um ar de pessoa forte, desceu do ônibus Saulo quase não o reconheceu. Apenas confirmando quando ele disse:

- Então aí está o grande Saulo das meninas! Mas como está feio.

Saulo deu um sorrisinho de canto de boca, que saiu devido à mistura de surpresa pela imponência do amigo e, pela quase vergonha de estar com uma aparência tão pior, mas Vilson nem notou e foi direto dando um acalorado e longo abraço, o qual fez com que o sorrisinho tornar-se um grande e largo sorriso.

- E então, como está a capital da nossa infância? O que há para fazermos? As meninas ainda continuam bonitas? – E dava risada indo em direção ao bagageiro.

- Estou casado, Vilsinho – Saulo respondeu sério.

O elegante amigo parou, olhou e disse já rindo.

- É tem umas que conseguem derrubar um grande homem, mas isso é remediável – E riu outra vez.

Mais uma vez sem risos veio a resposta.

- Tenho um filho. Ele tem três anos.

A surpresa do visitante foi notada por todos que ali estavam

- Mas seu traidor. Como é que faz um filho e não me avisa?

E antes que houvesse alguma resposta Vilsinho concluiu.

- Estou brincando, sei que me ausentei. Mas enfim, que bom! Uma notícia boa ao menos – E lançou ao amigo um olhar debochado.

Saulo fingiu não entender a piada maliciosa, ou talvez, não tenha acreditado que o amigo fosse capaz de ter mudado tanto assim, a ponto de desvalorizar uma coisa que ele tanto gostava e se orgulhava. Então seguiu sério, mudou de assunto e perguntou amenidades sobre a viagem enquanto ia ajudando Vilson com as duas malas bem pesadas. Foi aí que lhe ocorreu de perguntar se o amigo estava de passagem, o porquê de tanta bagagem.

- Sabia que não ia ficar só um dia aqui, ou não traria tanta bagagem, não?

- Havia lhe dito na carta que estava de passagem, tenho outros lugares para visitar, e como aqui era caminho não havia como não matar a saudade do amigão - disse arrumando uma das malas no ombro.

O caminho até a casa não era longo, mas o visitante não parou um segundo de falar, por isso acabou descobrindo que a mulher e o filho de Saulo estariam viajando. O que o deixou desapontado e um pouco triste, pois queria conhecer o filho e ver como o “Saulo das meninas” se comportava perto da esposa. Mas, esse desapontamento foi coisa de segundos e para encerrar esse sentimento falou:

- Bom, não vais ser dessa vez que verei o Saulinho, mas por outro lado estamos livres para fazer uma festinha e, afinal, tenho saudades de algumas beldades daqui.

Saulo riu e disse recuperando a seriedade:

- Você não tem jeito e saiba que as tais beldades também casam. Você não?

Vilsinho soltou uma gargalhada.


******************

Enquanto o velho amigo tomava banho, o anfitrião organizava a janta e preparava o seu melhor vinho para os dois beberem, pois a noite seria das mais agradáveis além de terem muitos assuntos atrasados para colocarem em dia. Ouvindo o barulho do chuveiro, Saulo tentava tirar da cabeça o fato do amigo ter mudado tanto fisicamente e, parecer tão elegante de aparência e não ter constituído família, “será que ele está bem de dinheiro?”, pensava. Então lhe ocorreu que Vilson poderia estar precisando de dinheiro, ou quem sabe envolvido em alguma enrascada. “Amigo é para isso”, pensou em voz alta e decidiu não tocar no assunto, só se o amigo quisesse. Seus pensamentos foram interrompidos pela chegada de Vilson na cozinha, esta que era ampla, pois a mulher de Saulo era de origem italiana e gostava de ficar boa parte do seu tempo na cozinha, o marido acabou se adaptando, assim como em muitas outras coisas; pelo casamento.

- Gostei da tua casa, é aconchegante mesmo, parece a casa das nossas avós – falou Vilsinho.

- Pois é, gosto daqui mesmo.

E a partir daí sentados naquela grande mesa, que ficava bem ao centro, o papo e o vinho eram derramados aos litros. Tinham que matar a saudade, Saulo se revigorava ao lembrar de coisas sobre ele que havia esquecido. As reminiscências eram tantas, realmente falavam de um passado tão bom, riam de uma vida que só o que se tinha era a vontade de viver o momento e, com toda a certeza do mundo, esperar pelo certo futuro próspero. Eram porres, transas, brigas ganhas, fugas de brigas... tanta coisa que levaram nisso mais de horas e duas garrafas de vinho. Foi tão bom que não chegaram a cogitar o presente, o passado de Vilson e o futuro. No entanto, o bom nunca se afasta tanto que outros ruídos que atrapalham a harmonia deixada no ar. De repente, o amigo que estava ali de visita falou em tom vago:

- Pois como pode o rapaz que era esperto, se dava bem com todos e tudo, além de traçar as melhores mulheres da cidade se contentar em ficar aqui, assim?

Na hora o sorriso de Saulo foi substituído por um olhar sério.Vilson vendo que tinha falado algo que ofendera o amigo, tentou consertar:

- Eu sei amigão, você fez a sua escolha, e, quem sabe qual é a certa? Só saberemos algum dia, mas não agora – E abriu os braços oferecendo-se a um abraço.

Saulo sorriu, concordou com um movimento de cabeça e falou:

- Falamos, falamos e esqueci de perguntar. E você, a última vez que soube, havia tornado-se um bacharel em direito, está trabalhando muito?

- Sabe, Saulão, que mal cheguei a trabalhar como advogado. Tinha um dinheiro guardado e investi na bolsa, então dei um pouco de sorte – falou rindo – e multipliquei um bom pouco esse dinheiro.

- Hum...você sempre foi esperto em matemática – disse Saulo não demonstrando surpresa.

- Pois é, mas a bolsa é coisa muito perigosa, vendi a maior parte e resolvi comprar imóveis. Isso sim é segurança! Todo final de mês o meu dinheirinho tava lá... – disse Vilson até ser interrompido pelo amigo.

- “Tava lá”? Vai me dizer que mudou de ramo mais uma vez?

- Não, não mudei. Vendi algum imóvel e comprei um caminhão, o que está me dando um bom lucro, tão bom que essa viagem é para ir a uma cidade vizinha comprar outro e, se tudo correr vou aumentando a frota e cresço nesse setor de transportes.

- Investe na bolsa, tem imóveis e vai ser empresário no setor de transportes? Deve estar tirando uma grana grossa, meu amigo – Falou Saulo e logo depois deu um assobio, desta vez mostrando surpresa.

- É, não se pode ficar parado na mesma – disse Vilsinho sorrindo.

Os dois ficaram em silêncio quase um minuto, Saulo secou a sua taça de vinho, fez sinal para o amigo fazer o mesmo, que o fez, então esvaziou a garrafa enchendo as duas taças.

- Toda essa vida e não tem mulher, não tem filhos? – disse Saulo, em voz baixa e encarando o amigo.

Depois de soltar uma gargalhada, Vilson respondeu:

- Para que, meu amigo velho? Filho até quero ter, mas mulher...? Não preciso – e rindo – aliás, preciso demais, por isso uma não me é suficiente. Tenho problemas demais no trabalho e elas não conseguirão resolver e tampouco eu conseguirei resolver os delas. Concorda?
- Não concordo, mas não discordo – respondeu aquele homem morador daquela cidadezinha tão acolhedora.

E mudando o tom da conversa com uma cara de criança que aprontou todas, disse aquele que morara há anos atrás na tal cidade:

- Tá, mas não falemos de assuntos maçantes. Tenho que te contar sobre umas viagens e umas mulheres que tu não vai acreditar.

Ali naquela casa onde Saulo depositara todo o seu futuro e orgulhava-se tanto do marido e pai que era. Vilson continuou com entusiasmo contando as suas peripécias, enquanto o amigo só escutava e fingia rir. Isto demorou pouco mais de meia garrafa de vinho até o anfitrião anunciar que estava com muito sono e precisava dormir. Vilsinho lamentou, mas nada pode fazer.

******************************

Já era 11 horas da manhã quando a esposa de Saulo chegou com seu filho. Não ficou contente com a bagunça que encontrara na cozinha. Taças e pratos sujos, mesa e toalha manchadas, então foi rápido ao quarto acordar o marido. Abriu as cortinas e o sol inundou o quarto quee parecia conseguir cutucar Saulo.

- Que horas é? – Disse Saulo.

- Quase meio dia, que vergonha – Respondeu ríspida a esposa.

- Vilson ta aí, meu amor, dá um desconto.

- Acho que estava, tem um bilhete lá em cima daquela bagunça que vocês deixaram – Falou a mulher e fez um movimento negativo de cabeça.

Então o marido levantou-se, a cabeça doía, e foi até a cozinha. Encontrou o bilhete de Vilsinho que dizia o seguinte:

“Amigo Saulo, fico feliz por a nossa amizade continuar intacta. Desculpa, mas tive que sair cedo, pois a vida me chama. Mande lembranças para a tua esposa e a próxima vez que eu vier trago uma lembrancinha para o menino. Do amigo Vilsinho.”

Então, com aquele bilhete na mão, Saulo lembrou de tudo o que ocorrera na noite passada, toda a vida que passou por seus sorrisos e palavras. Ficou em silêncio olhando aquele pequeno papel. O que acontecera com ele? O que acontecera com Vilson? Não sabia, mas sentiu uma coisa ruim no seu peito.

- E então, como tá o teu grande amigo? – Perguntou a sua esposa vindo em sua direção com o filho e uma mamadeira.

Pegando o seu filho e a mamadeira para dar-lhe de mamar, analisou a criança, pensou um pouco e respondeu:

- Não sei, o Vilson não é o mesmo. Está muito arrogante.

terça-feira, 13 de abril de 2010

The Beatles - In my life

No dia 10 de abril de 1970 o mundo via a banda mais influente de todos os tempos se desfazer. A data só não é tão triste devido ao legado que essa rapaziada deixou (Inclusive o lançamento que aconteceria 24 anos depois). Uma das coisas que mais me interessam é a música, então nada mais justo que ela ser assunto do blog e, nada melhor que iniciar falando desta data e homenageando esta banda:

Oasis - Supersonic

Coincidentemente, ou não, no mesmo dia 10 de abril, só que de 1994, essa banda de filhos de operários de Manchester lançou o seu primeiro single, "Supersonic". Assim lançava-se a importantíssima banda Oasis:

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Cavalidades e Individualismo

Leiam este pensamento: “Se quem dá coices são os cavalos e não a cavalidade, do mesmo modo quem age é o homem concreto e não a sociedade”. Forte, não? Realmente para alguns à primeira interpretação vai parecer que é uma ideia bastante drástica. Estas palavras foram escritas pelo filósofo Olavo de Carvalho e tem bastante peso retórico e também toneladas de esclarecimento sobre como viver, ou pelo menos o princípio de como seria para existir um mundo melhor. Explico a minha opinião a seguir.
Fala-se muito, atualmente, no individualismo do ser humano e de como por ser assim este é egoísta. A vida individualista do atual sistema é um monstro de sete cabeças que come criancinhas, no entanto, isso nada mais é do que a repetição do que a grande mídia excessivamente repete. Mas, a única forma de que haja um mundo melhor é de que comece pela individualidade do homem, pois a partir dele é que começa as transformações, baseadas no saber de que cada indivíduo possui seus direitos e deveres.
Quem pensa no comum, acredito que comete o erro de ver o cidadão apenas com direitos a ser atendidos, desta maneira, acredita que todos têm o direito de viver bem e de ter uma vida que todos sonham. Mas não, esquecem-se que o direito que temos é de buscar como viver bem, ou seja, cada um, da forma que achar correta, é autorizado alcançar esse objetivo. Se o cidadão acha que será feliz tendo quatro filhos, uma mulher e ganhando 50 mil reais por mês, ele tem o direito de trabalhar para que isso seja possível. Só que para isso não se pode esquecer que assim como temos direitos, temos deveres.
E é nos deveres que quem fala mal do individualismo, me parece, começa a não entendê-lo. Pois pense se cada um fizesse tudo correto, usasse seus direitos para crescer e fazer crescer a sua família respeitando e cumprindo os seus deveres, o mundo não seria melhor? Cada pessoa pode crescer e ser correta, sem desrespeitar ninguém e, se cada um tiver a consciência do que é certo e o que é errado, (e isso não é difícil, pois o habitual é que começaríamos aprender isso quase no mesmo momento em aprendemos a falar) TODOS viveriam bem.
O individualismo da sociedade atual, se fosse feito por pessoas corretas, só fomentaria o desenvolvimento, pois ao invés de haver atentados ao crescimento do outro cidadão cada qual buscaria o seu lugar na sociedade. É claro, aumentaria a competitividade, mas isso não é bom? Até as plantas em uma janela mudam de posição para buscar o melhor lugar ao sol, porque o homem não pode competir saudavelmente? Então, acredito que o filósofo Olavo de Carvalho quis dizer em sua retórica que não adianta teóricos, pseudo-pensadores e políticos virem com teorias baseadas na mudança da sociedade em sua amplitude, que não será por aí o caminho da transformação.
A mudança virá da tão famigerada individualidade, da tão famosa honestidade e não da mudança de sistema e nem da intervenção estatal enxertando políticas medíocres de assistência social, pois isso não é desejar um mundo melhor, é sim um plano de poder, mas isso deixemos para outro texto.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Sentinela

A velha rotina era a mesma quase todos os dias. O homem que fora funcionário público agora está aposentado e, apesar de ele não acreditar nisso, é um alcoólatra. É viúvo de um casamento infeliz o qual mesmo assim resultou um filho, este que não faz questão nenhuma de ver o pai, pois passaram a vida inteira brigando. Mas isso já não interessava para o homem, ele era satisfeito com a sua rabugice solitária e, quase todos os dias no início do crepúsculo dirigia-se ao bar.
Naquele dia fez o mesmo de sempre. Tomou um banho e caminhando tranquilamente desceu a rua para tomar a sua bebida. O dono do estabelecimento já sabia o que ele queria e onde ele gostava de sentar. Já estava tudo pronto como sempre. O homem era um observador, sentava na sua mesa e observava. Por isso, quando passou aquela moça de cabelos compridos e lisos de uma cor que os deixavam parecidos com uma cortina negra e brilhosa, ele já sabia que ela não estava perfumada somente por asseio. Então, maliciando falou a quem estava ali no bar:
- Alguém sabe a quem pertence esse perfume – e riu sarcasticamente.
O perfume pertencia a um morador do prédio da esquina, o qual a mulher era freqüentadora assídua de um centro religioso que existia nas proximidades, então a bela morena sabendo disso ia até o apartamento que lá se encontrava o marido sedento de prazer. Tinham uma hora de sexo pouco carinhoso, porque o amante ainda amava a sua mulher, porém a moça dos cabelos lindos o seduzira e realmente ela era uma insaciável. O “coitado” cedeu à tentação. E o observador homem sabia de tudo isso e mais, tanto que talvez com um pouco de inveja disse no bar:
- Ele aguenta porque sei o remedinho que ele compra na farmácia.
Ninguém lhe escutava, ele era um chato e arrogante, além de ser fofoqueiro. Então ali ele seguia na sua incansável tarefa de espião de ninguém. Sabia também do arcano que era guardado pelo garotão que sentado na sua motocicleta, expunha seus músculos como um pássaro que canta o canto do acasalamento. Não comentou nada com ninguém desta vez, pois achava que ninguém tinha inteligência o suficiente para ver as coisas como ele, no entanto, sabia que aquele símbolo da virilidade apenas fazia pose, pois tinha problemas com a sua ereção, e isto ele descobrira escutando uma moça contar a outra, em tom de segredo, entre as prateleiras do mercado.
Pediu mais uma bebida, a esposa traída passou para casa e um pouco a frente do bar se cruzou com a traidora e até se cumprimentaram, ele ria sozinho, se divertia. Não conversava com ninguém, mas se divertia se achando uma pessoa esperta que sabia da vida. Ele era assim, gostava de saber de tudo, falava mal do dono do bar que não sabia cuidar das suas finanças, falava mal do dono de uma loja que bebia demais ali no bar, para todos tinha um dossiê sujo na sua cabeça, e, assim ia passando seu tempo.
Naquela noite os acontecimentos que tinham que acontecer, aconteceram. Então aquele dia tinha terminado, pediu para o dono do bar anotar o que tinha bebido, já estava bêbado, mas pegou mais alguma para beber em casa. Então, levantou-se e sem se despedir de ninguém foi embora, pois ainda tinha mais outros e outros dias para ele, sentado, observar a vida passar.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Retorno à escrita

A falta de tempo é uma grande adversária da escrita, e no meu caso ela tinha encontrado uma aliada, a preguiça mental.
Porém, surpreendentemente a escrita se aliou a algumas adversidades e a inspiração ou vitória da escrita, como preferirem, aconteceu.
Azar é de quem ler. Comentários são bem vindos...SEMPRE!

Da morte à vida

4 de março de 2010

Quando ele abre os olhos ao acordar nem pensa sobre a vida, sua mente já está automaticamente induzida a pensar o mesmo que pensa todos os dias. Abre os olhos assustado. Assimila que tem que desligar o despertador, desliga. Levanta e se espreguiça. Do escovar os dentes até a saída pela porta a rotina é precisamente a mesma. Se alguém dissesse que ele faz dormindo, poderia se acreditar.
Até o caminho ao trabalho é o mesmo, exceto pelo tempo que é mais original que ele próprio, muda às vezes. Os cumprimentos, as piadas, as risadas e até mesmo as xingadas do patrão se repetem. Invariavelmente, de segunda a sexta acontecia a mesma coisa. E durante todo esse tempo o que ele mais aguardava era o sábado e o domingo, como se fosse fazer algo extraordinário.
O sábado e o domingo sempre chegavam. E daí? Nada! No sábado locava um filme, muitas vezes algum clássico, quase sempre algum clássico, pois não queria arriscar de locar alguma novidade, e perder o seu precioso tempo assistindo alguma porcaria. Algumas vezes fazia uma janta, em outras encomendava uma pizza, mas sempre tomava um porre pela madrugada adentro. Era um homem de boa cultura, pois lia bastante, aliás, era até inteligente, todavia não a usava muito, a não ser nessas madrugadas de sábado para domingo que desvendava os problemas mundanos e sociais...para ele mesmo. Então dormia. No domingo, de ressaca, acordava, arrumava a bagunça da noite anterior, comia o resto da comida e recomeçava antecipadamente o martírio semanal, pois a partir do marasmo que é o domingo ele já começava a penar pensando na semana que viria.
Ele já vivera de outra maneira, mas alguém que manda em tudo lhe tirou peças importantes para sua vida ser algo empolgante e feliz. Aos poucos, devido a certas ausências o rapaz foi mudando, foi tornando-se insuportável e o mundo foi virando “um cara” medíocre e chato. As mudanças foram tão naturais que ele nem notou, a tristeza, que aparecera como um fugitivo que entra de abrupto procurando abrigo, se acomodou de tal forma com a sua hospitalidade, que quando a alegria foi embora levando sua bagagem, ele nem notou. Esqueceu que um dia ela o habitara.
Assim viveu anos e, isso não o incomodava, pois algo aconteceu cognitivamente com ele que esquecera totalmente como viver de outra forma. Era uma pessoa neutra, vivia porque tinha que viver, ou melhor: sobrevivia.
Mas a vida é inexplicável, é soberana. Seus ventos mudam sem aviso prévio e sem que possamos entender os motivos, lá no final ela deve apresentar as justificativas para os seus caprichos. Possivelmente, por isso certo dia ele abriu os olhos e pensou sobre a vida - tinha tido uma noite esquisita, agitada, desligou o despertador e seguiu pensando na vida. Não se espreguiçou e foi escovar os dentes, pensando, mas na frente do espelho concluiu os seus pensamentos. Sorriu, e fazia tempo que aquele espelho não refletia um sorriso, então se escovou, vestiu-se e foi rumo ao prédio onde trabalhava.
No prédio, entrou, sorriu ao porteiro que estranhou esse comportamento e mais ainda porque vinte minutos depois ele desceu com cara de alegre e deu um “Tchau!”.
Ele foi viver!

Da vida à felicidade

4 de março de 2010

Seu nome era Carlos e não se sabe a razão, mas naquela manhã estava gostando do seu nome, repetia, “Carlos! Carlos!” enquanto caminhava decidido pela rua. Carlos estava voltando de onde tomou uma decisão determinante em sua vida, e, completamente entorpecido por um sentimento que não sabia qual era, voltava para casa.
Chegou em casa fez uma mala não muito grande, procurou algum número que estava na sua lista de telefones e anotou em um papel, colocou a anotação na carteira, colocou no bolso, pegou a mala, trancou o apartamento e se mandou para resolver pequenas coisas no banco. Quatro horas da tarde, ele já estava dentro de um ônibus que levava a uma cidade bastante distante. A cabeça de Carlos rodava muito mais rápido que os pneus do ônibus e, ele sorria, ele ria, ele gargalhava, por quê? Não conseguia calcular o tamanho da sua atitude. Cada vez que pensava que era loucura, pensava “Ah! Às favas!” e pensava em outras coisas, ou deliciava-se com o vento que empurrava sua cabeça contra o banco. Ouviu vozes:

- Fecha essa janela, imbecil!

E ele sorria e pensava “É, eu realmente sou um imbecil”.

Já havia rodado quilômetros, já haviam passado muitas horas quando ele chegou naquela cidade tipicamente do interior, pela janela Carlos via alguns moradores e não tinha como não reparar na cara de inocência, na cara de quem vive bem a vida simples daquela gente. Ele respirava fundo, e cada vez mais tinha certeza de que estava fazendo a coisa certa. Desceu na rodoviária, pegou a bagagem e decidiu ir a pé até o seu destino. Divertia-se cumprimentando as pessoas que lhe respondiam, porém com uma cara de que não tinham certeza se conheciam aquele homem. Um velho chegou a virar para trás e o reconheceu, mas quando teve certeza Carlos já ia longe.
Aquela senhora quando abriu a porta não estava preparada para ver Carlos assim, tão surpreendentemente. Quase que tudo se estragou. Passado vinte minutos de recuperação o filho conseguiu recuperar a mãe que estava radiante de felicidade e, só abraçava e beijava a sua cria. “Eu sou um imbecil mesmo”, pensava ele, “poderia ter vindo aqui mais vezes” e ia desafogando a velha da sua inundação de alegria.
A mãe de Carlos era viúva e agora tinha além dele outro filho que morava numa cidade próxima, e a visitava seguidamente. Mas além de fazer tanto tempo que não o via, este era o seu filho mais novo, o que por morar longe deveria sofrer mais. Passado o momento do frenesi da chegada, começaram as perguntas, no entanto Caio – assim que ela o chamava, pois ele se autoapelidara por não saber pronunciar o nome quando era bebê – fugia das perguntas dizendo que estava com fome e cansado, depois responderia com calma. Comeu e foi dormir na sua cama de quando ainda era adolescente.
Ao acordar, pensando em como era bom estar ali, sentiu cheiro de comida. A mesa já estava posta e, mal chegou, a mãe já começou a tagarelar. Os vizinhos e as tias de segundo, terceiro e quarto graus já sabiam da visita. Carlos mal ouvia. Parou só quando ela disse:

- Liguei para o seu irmão, sabe como ele é...não falou quase nada, mas disse que no final de semana vem te ver.

- No final de semana já não estarei mais aqui, mãe. Vou abrir um negócio na praia de Paradiso – Falou Carlos.

A empolgada a velhinha parou o que estava fazendo e olhou Carlos com um olhar de quem não acreditava. Mas logo depois dessa reação, notando que o filho não ficara confortável, mudou o tom e perguntou mais descontraída:

- Mas e o seu trabalho lá na cidade?

- Larguei – Ele respondeu ao beliscar a comida que ela servia, e logo depois fez um gesto para que ela não se preocupasse.

Comeram tranquilamente. Na janta lembraram coisas do passado, riram das molecagens e das brincadeiras “desses guris” como dizia ela. Tudo correu bem, a harmonia parecia perfumar o ambiente. Foram até tarde conversando, até que a velha adormeceu. Carlos a acordou e ela foi dormir na cama. Ele tomou mais algumas taças de vinho e foi dormir também. O irmão de Carlos achou muito ruim a atitude do irmão, que ao sair pela manhã só deixou um bilhete avisando que fora embora sem ao menos se despedir, sem falar na atitude de largar o emprego para se aventurar em um negócio incerto.
Mas Carlos queria aventura mesmo. Chegou à praia e a primeira coisa que fez, foi comprar uma moto possante, pois sempre sonhara ter uma - porém as pessoas o censuravam. Então após abrir o seu negócio ele seria seu chefe e sairia a viajar por onde quisesse. Em busca desse objetivo, passado um mês no local Carlos estava com o seu bar de portas abertas, pois ele tinha economias. O que vendia já lhe sustentava sem luxos e, foi assim, sem preocupações, por anos. Todos gostaram do seu jeito, meio sério, meio divertido, “ele parece que sorri para tirar o atrasado” disse um cliente.
E passou um ano desde a abertura do bar Ventura. O bar ia bem porque o dono estava bem, e o dono não precisava de muito lucro, ele precisava outra coisa. E aconteceram várias! Carlos teve muitos amigos, viveu paixões, riu, chorou, abraçou sinceramente e tudo como alguém que encontra água no deserto e pensa só em beber. “Eu sou um imbecil” dizia ele gargalhando aos amigos quando estava bêbado.
Passou pouco mais de um ano, e uma “ardência” que havia tempos incomodava seu coração agora ficara insuportável. Carlos tinha que ver a sua mãe e seu irmão, era tempo disso. Talvez propusesse que viessem visitá-lo? Não, ele pegaria sua moto e iria dessa vez. Ligou para o seu irmão e combinou.
De manhã cedo pegou a sua moto e encarou a estrada. O encontro da família não poderia ser melhor. O irmão de Carlos ficou meio desconfiado à primeira impressão pelo seu sustento, mas depois esqueceu por ver como o irmão estava bem, até pediu conselhos e prometeu que iria levar a mãe, mulher e filhos deles lá "na sua praia", e, noutra vez iria sozinho. Diante de tudo isso a realização da mãe era plena por ver que a sua vida estava novamente se encaminhando como ela pedira nas orações. Na última noite os dois irmãos beberam bastante, confraternizaram e saudaram a vida que estavam levando. Já era tarde quando o irmão dele se despediu, pois um dos filhos chorava e a esposa o chamava. Carlos tomou mais meia garrafa de vinho e decidiu não cumprir o que tinha prometido, depois que abriu o Ventura aprendeu a confiar em si, e achou que se saísse aquela hora ainda chegava para abrir o bar em um horário bom para a clientela. Deixou mais uma vez um bilhete, o irmão até escutou o ronco do motor da motocicleta, mas achou que ele fosse pegar mais vinho e não se levantou.
No outro dia o Ventura não abriu, o irmão recebeu a notícia antes mesmo de ler o bilhete e, uma parte da mãe de Carlos morreu também.
Mas apesar da tristeza que obrigatoriamente restou, com o capacete aberto e o vento na cara, Carlos sorria quando apareceu aquele carro sem luz. Naquele momento ele pensava:

- Eu não sou um imbecil, eu conheci a felicidade!