Fico pensando nas pessoas que me cercam e se elas notam alguns fatos que vejo, ou estão entorpecidas pela “humildade crônica” que a mídia brasileira lança como um gás viciante. Será possível que o mérito e o trabalho não sejam valores mais importantes que a humildade e a simpatia? Veja bem, não afirmo que ser humilde é um defeito, o que digo é que em nosso país o excesso de “coitadismo” é patológico. Vou dar exemplos corriqueiros que só quem já foi atingido pelo gás torpe não consegue ver.
A rede globo que acaba de ser premiada pela sua novela “O caminho das Índias” é a maior endeusadora da humildade viciante. A audiência de suas novelas é soberana há anos em nosso país, e quem não tem TV a cabo – a maioria – muito provavelmente irá sentar na frente da televisão e assistir as histórias contadas pela emissora. Eu mesmo a maior parte da minha vida me vi em frente a esse eletrodoméstico, e não me lembro de ter visto alguma vez um personagem sequer que tenha dinheiro ser considerado honesto e de bom caráter. Os personagens ricos são vilões e conquistaram sua fortuna de alguma maneira ilegítima, ou seja, o mérito de quem tem dinheiro não pode ser adquirido pelo trabalho. Se ele está usufruindo de uma mansão é porque ele trapaceou. Por outro lado, todo o coitadinho, sem levar em consideração a possível incompetência, é o que merece a redenção no céu.
Vou dar outro exemplo, este que atinge a paixão do brasileiro, o futebol. É normal a discussão sobre quem é o melhor jogador do mundo, tanto entre amigos, quanto nos programas esportivos, e nelas noto o vício vindo dos comentaristas esportivos que chega à opinião popular. O português Cristiano Ronaldo arrebenta, porém a humildade realmente não é o seu ponto forte, logo é quase certa a frase de que “ele não é o melhor, não joga para o time”. Porém, aos meus amigos – pois aos comentaristas não tenho acesso – pergunto: “Vocês tem acompanhado os jogos dos candidatos a esse título?”, a resposta surpreendente da maioria é não. Mas, então como estão querendo julgar a competência do atleta se não vêem nem ele e nem os concorrentes jogarem? Simples, ele é bom e sabe que é, e isso perturba os brasileiros que só podem admitir que uma pessoa seja merecedora de admiração se for humilde. Particularmente, não vejo problema em reconhecer a competência desde que seja comprovada, e isso se transfere para momentos rotineiros de nossas vidas.
Devido a essa imposição da grande mídia nacional, quando era mais novo sempre via a palavra ambição como alguma heresia, algo comparado a uma pessoa desonesta. Hoje penso que se seguida de maneira honesta, é uma qualidade do ser humano. No entanto, o povo brasileiro é condicionado a encarar como pecado a busca por gerar lucro e ser uma pessoa bem sucedida que usufrui de sua mansão, a qual obteve de maneira honesta. Não preciso ter uma casa grande, minha ambição é menor que isso, mas admiro muito quem trabalha idoneamente para comprar uma, pois afinal devia ser um de seus sonhos e lutou para isso.
A minha ambição é que eu tenha uma vida confortável, mas que busque riqueza realmente no meu intelecto, e dessa maneira não precise ser humilde e nem simpático. Certamente, seria mal visto, pois assim como quem tem um carro importado, aqueles que buscam outras fontes de conhecimentos, as quais não estão impostas e dominadas pela maioria, são encarados como seres chatos de outro mundo. Por isso não é de se espantar que neste país da simpatia e da humildade tenhamos um presidente que só lembra que veio da classe operária, mas não lembra de trabalho algum, e pior, vangloria-se de não ter estudado e ter alcançado o cargo que exerce atualmente. Uma pessoa famosa disse que “o povo não tem a capacidade de escolher seus líderes”; isto é uma verdade e está totalmente conexa com a incapacidade do brasileiro em escolher um ídolo ou mesmo um simplório personagem de novela que seja digno de seu respeito.
A mídia faz isso propositadamente? A resposta está reluzindo, e se não enxergam é porque os fatos não mudarão, e, não adianta vir um arrogante achar que tem a verdade, pois não será ouvido. O único que poderá ser ouvido é o humilde e simpático, mas acho muito pouco provável que este se dispa destas características e abra os olhos e ouvidos dos descrentes.
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Um texto orgânico, mas notavelmente sincero.
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