sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Um olhar

Meus conhecimentos sobre psicologia são modestos, foram adquiridos através da minha busca e leitura. Sei, por exemplo, que Behaviorismo é um conjunto de teorias psicológicas que analisam o comportamento através da repetição de estímulos e das reações ou respostas. Ao colocarmos repetidas vezes em uma gaiola de um rato um queijo com um dispositivo que o dá choque, o animal depois da repetição terá um comportamento.
Um ser humano também pode ser estudado através das teorias do Behaviorismo. O fato de vermos todos os dias nos jornais notícias de violência nos faz tolerantes ao que nos acostumamos a ver. Assim como a mão de um trabalhador braçal, nossa estrutura cognitiva já endureceu, quando aparece o festival de notícias chocantes ainda conseguimos ao mesmo tempo rir e falar de amenidades. Relatarei aqui algo que me fez pensar sobre essa tolerância ao choque mental que tomamos diariamente, mas não no intuito de tornar admirável qualquer atitude, mas sim de refletir sobre as reações que presenciei.
À noite voltando para casa, fui abordado por um casal o qual me contaram - e a quem me acompanhava - uma estória. Eram de Porto Alegre e fazia 14 dias que estavam em Santa Maria, sem dinheiro e sem ter onde dormir, a não ser no local que se encostavam ao ter sono. O comportamento em relação às inúmeras notícias de violência já começou a manifestar-se no meu inconsciente, “Mas como vem do nada para uma outra cidade sem dinheiro no bolso?”. Então o ceticismo e, talvez outro sentimento, fez-me perguntar, mas porque vieram parar justamente aqui. Alegaram-me que vieram, pois conheceram um indivíduo que prometeu emprego ao rapaz, e assim ele convidou a sua companheira e venho em busca desse trabalho. Então, ofereci a única coisa que eu tinha na ocasião. Comida. Levei-os até a minha casa e servi um bom prato do que tinha, esquentei, e levei junto com um suco. Comeram e se foram.
Espero que o cuidado que estou tendo para não ser demagógico neste relato seja compreendido pelo leitor, pois a minha atitude não acrescenta em nada na vida e penso que seria o normal de todas as pessoas que conheço o fazer. O anormal é que me fez refletir. Pois, uma das pessoas que estava comigo, depois quando comentávamos, teve a reação de desconfiança, e logo veio a sua cabeça que se estavam com fome porque não foram pedir para limpar um pátio; outra pessoa que soube do ocorrido me chamou de louco, pois eu coloquei em risco a minha segurança. O medo da violência, que todos os dias vimos diante de nossa retina, explica essas reações, pois apesar de ser banal e já estarem acostumados a receberem notícias da violência, essa banalidade quando colocada em voga provoca um sentimento e uma atitude de auto proteção diante do problema.
Realmente, eu posso ter me colocado em uma situação arriscada. Porém, se há um sentimento e uma busca por fugir ao condicionamento que a sociedade nos coloca, é de que o homem deve tomar suas atitudes embasadas na consciência e no que acha correto. Ressalto que não sou socialista, apenas acredito que o mundo melhor existiria se cada indivíduo preocupasse consigo, e assim soubesse das suas obrigações e o que é o correto. Pois, somente um ser que é amoral ou, possui uma mente que margeia a racionalidade, pode não saber o que é correto e justo dentro de uma sociedade. Ajudei aquele cidadão porque acreditei na estória dele, e ele estava preocupado consigo e com sua parceira, então veio tentar fazer sua parte, veio procurar trabalho.
Os mais calejados podem dizer: “Ele pode ter te mentido?”. É verdade, ele poderia. Mas para finalizar, vale terminar o meu relato. Quando apareci com o prato de comida ele estava pedindo, a uma das pessoas que me acompanhava, um dinheiro para que pudesse dormir, todavia quando o rapaz e a moça viram o prato de comida, esqueceram na hora do dinheiro, e se alguém já viu um olhar de verdadeira felicidade sabe do que falo, pois eu vi nos olhos claros daquela jovem não só alegria e gratidão, mas sim um ser humano deixando cair a máscara de proteção que usamos contra a sociedade. Naquele momento os dois esqueceram os seus calos que adquiriram pelo mundo, e foram seres sinceros assim como uma criança.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A minoria está maioria

Que há preconceito e sempre houve não é novidade, porém hoje em dia essa discussão está pouco interessante, haja vista que o conceito do “pré” é que está um tanto discutível. Como seria “pré”-conceito as avaliações sobre negros, índios e qualquer outra minoria se já está devidamente conceituado que elas são tudo o que deve ser defendido por todos.

Há algum tempo ouvi atônito em um programa da maior rede televisiva do Brasil, de uma atriz que faz novelas, a seguinte frase: “panelada de amor não dói”. Parece boba, mas a minha reação explica-se pelo fato de que essa não seja uma resposta, mas sim uma frase de protesto - camuflada como engraçadinha – após a pergunta de um espectador a uma delegada, sobre se há homens que vão até a delegacia da mulher, denunciar agressões sofridas por eles vinda de pessoas do sexo feminino. Ela respondeu que sim, realmente há agressões contra homens. Então, qual a responsabilidade moral de uma atriz em dizer que panelada de amor não dói?

Em primeiro lugar, essa atriz pressupôs que o instrumento de trabalho dos seres que são do seu mesmo sexo seja a panela. Além disso, e mais grave, analisa-se a covardia da declaração, pois no Brasil está na moda e é fácil defender as “minorias”, de modo que foi imposta uma política de cotas, e ter dinheiro e ser bem sucedido é feio, é pecado. Então porque a querida atriz não se calou, ou melhor, falou que as mulheres são tão fortes quanto os homens e podem sim dar paneladas, podem agredir e isso ser considerado, da mesma forma como com o homem, um erro? Não, ela preferiu se somar à maioria preconceituosa e “defensora das minorias”, atitude, que como acontece a uma criança mimada, leva aos que deviam ser punidos ficarem a cima das regras sociais.

Sempre haverá bondade, pois sempre haverá gente boa querendo defender e ajudar quem necessita, e isso é importante e admirável. Contudo quem consegue por suas mãos e suor ou pelos esforços de sua família vale menos que o mendigo bebendo atirado na calçada. Assim como há gente boa, há gente má, e, este mendigo pode ser bom ou mau, da mesma forma que o dono do carro blindado na sinaleira.

As pessoas quando pensam em ser ajudados, devem lembrar que os primeiros a ajudá-los são eles próprios. Essa cultura da espera por ajuda é a aspirina no câncer, haja vista que o mundo está condenado a ser dominado, simplesmente porque é mais fácil dominar conformados e bonzinhos que tomam paneladas e acham que merecem.

sábado, 10 de outubro de 2009

Enquanto houver Sonho

Conto escrito em dezembro de 2008.

O hotel situava-se num bairro triste, era mais um entre aqueles prédios antigos e carcomidos pelos deletérios que o tempo causa. No térreo morava o velho que era o proprietário, e ali ficava a maior parte do dia. Ele somente saía para cobrar os três inquilinos semanalmente, pois apesar de serem moradores relativamente antigos, segundo ele declarava, não eram pessoas suscetíveis de confiança. O lugar possuía quatro quartos - ou seja, apenas um disponível para novos locatários - e no térreo um banheiro sujo, um quarto minúsculo, uma cozinha espaçosa e um hall com um sofá vermelho, uma cópia de Dali (o qual, ali, ninguém sabia) e um balcão na frente daquele senhor tão carcomido quanto o seu hotel. Os três moradores relacionavam-se somente no almoço, que era feito e servido pela única funcionária do estabelecimento. Mesmo assim o relacionamento resumia-se em “bom dia”, ou algumas indiretas sobre incômodos na data anterior.
Naquele domingo o horário do almoço anunciou uma mudança na tediosa rotina do lugar. O morador do quarto dois sentou-se à mesa apenas com a intenção de ironizar sobre o silêncio que tinha sido na noite anterior no quarto três, pois todas as noites vinham barulhos de prazer da porta da frente, os quais perturbavam o inquilino do dois. Mas Gilda não desceu, apesar da espera até as 15 horas do irônico vizinho. Não sabia ele que a noite chuvosa de sábado foi inspiradora para Gilda.
Era uma mulher de seus 45 anos, os quais a sua face demonstrava que estes não tinham lhe feito muito bem. Pele clara, pois não saía quase de dia, cabelos louros e tão grossos que mais pareciam os de um espantalho, as mãos e o rosto já eram carregados de rugas, porém ela cuidava de sua aparência. Sua sobrevivência exigia! E esta visita da velhice não lhe fazia bem, haja vista, que ela já deu sinais que veio para ficar. Por estar mal, resolveu não sair à noite, ficou no seu quarto funesto pensando e bebendo uma vodka de garrafa de plástico. O quarto não lhe era tão mal, aqueles móveis velhos e ainda aquele sofá furado já faziam parte de sua vida, tudo aquilo combinava com ela. Porém aquele dia tudo no quarto estava falando demais, parecia que queriam lembrar Gilda que ela não tinha conseguido algo, então ela resolveu mexer em seu velho baú que ficava sob a cama. Pensou: “Este me recordará o quanto valho”, e fez um movimento de levantar-se do sofá, mas a vodka queria que ali ela permanecesse sentada, a bebida não mandava nela tanto assim, no segundo esforço levantou-se e saiu trambolhando até a cama, então deitada na cama mesmo, puxou o baú e o abriu. Este sim sabia de sua vida, fez-lhe sorrir, fez-lhe gargalhar, fez-lhe suspirar; nesses anos ela tem algumas coisas que pode contar e se divertir. Porém o baú não percebeu e mostrou-lhe um papel com uns versos rabiscados. Gilda chorou. Até quem era de confiança, agora prega esta à mulher.
Então cansou de ser caçoada. Constatou que a chuva era forte, colocou uma blusa de gola rolê, pegou um guarda chuva, serviu um copo de vodka que tomou com um gole firme todo o líquido, pegou a garrafa de plástico com o resto de bebida e determinada caminhou rumo ao corredor do hotel. Passou pelo hall, o velho babava em cima de um jornal que se encontrava sobre o balcão, olhou o relógio e ele parece que sabendo de sua passada por ali badalou doze vezes, então se despediu do hotel e encarou a rua. Notou lugares e coisas que nunca tinha notado ao caminhar por lugares que todo o dia passava, falou baixinho “nunca reparei tanto em ti, rua. Tu que sempre foi minha companheira” e limpou mais uma lágrima que percorria a tez rugosa. De repente notou que instintivamente estava caminhando para a esquina aonde todas às noites ia, então ao passar por ali, no seu guarda chuva, escondeu-se das pessoas que via sempre (para ela esconder-se é que realmente teve serventia o objeto) e seguiu em frente.
Notou que estava sem rumo, tinha um objetivo, mas não rumo. Parou, secou a garrafa e pensou: “A construção inacabada!”, então para lá foi. Naquele lugar que muitas vezes fez meninos tornarem-se homens, velhos tornarem-se meninos, e deixou boa parte de sua vida. Então, sorrateiramente, entrou para não ser vista pelos vultos que ali habitavam e subiu até o décimo e último andar. Pensou melancolicamente, porém irredutível sobre o que ali viera fazer, chorou seu último pranto e antes de saltar falou:

- Então leve o resto da minha fracassada vida.

A noite de domingo também foi calma, para o alívio do vizinho do quarto de Gilda. Porém, não conseguiu dormir tentando descobrir onde diabos tinha se metido aquela puta que morava na frente do seu quarto. Segunda de manhã cedo antes de sair pra tomar café, foi perguntar ao senhor da portaria, se ele sabia daquela mulher imoral. Todavia, foi o velho que falou primeiro:

- Olhe aqui o jornal, a moradora do três se atirou do prédio inacabado - E balançou a cabeça negativamente de leve.
- Morreu? – Perguntou sem pensar o vizinho.
- Claro, foi do décimo andar.

Então o homem do balcão pegou um papel com um manuscrito e mostrando pro outro homem, disse pesarosamente:

- Achei em cima da cama dela assim que soube. Até que era boa pessoa – e depois de uma pausa, complementou. – Pagava em dia a semana do quarto.

O vizinho do quarto, sem prestar atenção no comentário do velho, leu o que dizia no papel, em silêncio guardo-o, e naquele momento viu que foi surpreendido, pois na sua frente morava um ser humano. Eis os versos que estavam escritos no papel:

“Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer nada
À parte disso tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

P.s: Trecho do poema "Tabacaria" de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Asinus sum

Na descrição tentei explicar as razões as quais me encorajaram a fazer este blog. Porém, tive que editar o texto umas dez vezes por excesso de caracteres, então não sei se ficou bem claro. Acho que aquele texto deveria estar aqui, mas agora foi pra lá e é lá que ele ficará.
Aqui, apenas agradeço a paciência de quem gastou seu tempo clicando até chegar neste espaço que reservei para descarregar toda a bobagem (para mim algumas vezes não são) que excede na minha cabeça. Pois um asno também tem um limite de carga possível de carregar, e aqui pretendo escrever sobre o que meus sentidos levam até a minha cabeça. Igual a um asno tenho meu limite de carga, e para que eu não empaque e siga galopando nessa condição, postarei alguns contos, crônicas...sei lá, textos que vazam da minha burrice.
Que fique claro que escrevo para mim, porém se alguém concordar ou discordar e quiser postar alguma mensagem, ficarei agradecido pelo tempo gasto em avaliar as minhas idéias, gildices e afins.
Até!