sábado, 10 de outubro de 2009

Enquanto houver Sonho

Conto escrito em dezembro de 2008.

O hotel situava-se num bairro triste, era mais um entre aqueles prédios antigos e carcomidos pelos deletérios que o tempo causa. No térreo morava o velho que era o proprietário, e ali ficava a maior parte do dia. Ele somente saía para cobrar os três inquilinos semanalmente, pois apesar de serem moradores relativamente antigos, segundo ele declarava, não eram pessoas suscetíveis de confiança. O lugar possuía quatro quartos - ou seja, apenas um disponível para novos locatários - e no térreo um banheiro sujo, um quarto minúsculo, uma cozinha espaçosa e um hall com um sofá vermelho, uma cópia de Dali (o qual, ali, ninguém sabia) e um balcão na frente daquele senhor tão carcomido quanto o seu hotel. Os três moradores relacionavam-se somente no almoço, que era feito e servido pela única funcionária do estabelecimento. Mesmo assim o relacionamento resumia-se em “bom dia”, ou algumas indiretas sobre incômodos na data anterior.
Naquele domingo o horário do almoço anunciou uma mudança na tediosa rotina do lugar. O morador do quarto dois sentou-se à mesa apenas com a intenção de ironizar sobre o silêncio que tinha sido na noite anterior no quarto três, pois todas as noites vinham barulhos de prazer da porta da frente, os quais perturbavam o inquilino do dois. Mas Gilda não desceu, apesar da espera até as 15 horas do irônico vizinho. Não sabia ele que a noite chuvosa de sábado foi inspiradora para Gilda.
Era uma mulher de seus 45 anos, os quais a sua face demonstrava que estes não tinham lhe feito muito bem. Pele clara, pois não saía quase de dia, cabelos louros e tão grossos que mais pareciam os de um espantalho, as mãos e o rosto já eram carregados de rugas, porém ela cuidava de sua aparência. Sua sobrevivência exigia! E esta visita da velhice não lhe fazia bem, haja vista, que ela já deu sinais que veio para ficar. Por estar mal, resolveu não sair à noite, ficou no seu quarto funesto pensando e bebendo uma vodka de garrafa de plástico. O quarto não lhe era tão mal, aqueles móveis velhos e ainda aquele sofá furado já faziam parte de sua vida, tudo aquilo combinava com ela. Porém aquele dia tudo no quarto estava falando demais, parecia que queriam lembrar Gilda que ela não tinha conseguido algo, então ela resolveu mexer em seu velho baú que ficava sob a cama. Pensou: “Este me recordará o quanto valho”, e fez um movimento de levantar-se do sofá, mas a vodka queria que ali ela permanecesse sentada, a bebida não mandava nela tanto assim, no segundo esforço levantou-se e saiu trambolhando até a cama, então deitada na cama mesmo, puxou o baú e o abriu. Este sim sabia de sua vida, fez-lhe sorrir, fez-lhe gargalhar, fez-lhe suspirar; nesses anos ela tem algumas coisas que pode contar e se divertir. Porém o baú não percebeu e mostrou-lhe um papel com uns versos rabiscados. Gilda chorou. Até quem era de confiança, agora prega esta à mulher.
Então cansou de ser caçoada. Constatou que a chuva era forte, colocou uma blusa de gola rolê, pegou um guarda chuva, serviu um copo de vodka que tomou com um gole firme todo o líquido, pegou a garrafa de plástico com o resto de bebida e determinada caminhou rumo ao corredor do hotel. Passou pelo hall, o velho babava em cima de um jornal que se encontrava sobre o balcão, olhou o relógio e ele parece que sabendo de sua passada por ali badalou doze vezes, então se despediu do hotel e encarou a rua. Notou lugares e coisas que nunca tinha notado ao caminhar por lugares que todo o dia passava, falou baixinho “nunca reparei tanto em ti, rua. Tu que sempre foi minha companheira” e limpou mais uma lágrima que percorria a tez rugosa. De repente notou que instintivamente estava caminhando para a esquina aonde todas às noites ia, então ao passar por ali, no seu guarda chuva, escondeu-se das pessoas que via sempre (para ela esconder-se é que realmente teve serventia o objeto) e seguiu em frente.
Notou que estava sem rumo, tinha um objetivo, mas não rumo. Parou, secou a garrafa e pensou: “A construção inacabada!”, então para lá foi. Naquele lugar que muitas vezes fez meninos tornarem-se homens, velhos tornarem-se meninos, e deixou boa parte de sua vida. Então, sorrateiramente, entrou para não ser vista pelos vultos que ali habitavam e subiu até o décimo e último andar. Pensou melancolicamente, porém irredutível sobre o que ali viera fazer, chorou seu último pranto e antes de saltar falou:

- Então leve o resto da minha fracassada vida.

A noite de domingo também foi calma, para o alívio do vizinho do quarto de Gilda. Porém, não conseguiu dormir tentando descobrir onde diabos tinha se metido aquela puta que morava na frente do seu quarto. Segunda de manhã cedo antes de sair pra tomar café, foi perguntar ao senhor da portaria, se ele sabia daquela mulher imoral. Todavia, foi o velho que falou primeiro:

- Olhe aqui o jornal, a moradora do três se atirou do prédio inacabado - E balançou a cabeça negativamente de leve.
- Morreu? – Perguntou sem pensar o vizinho.
- Claro, foi do décimo andar.

Então o homem do balcão pegou um papel com um manuscrito e mostrando pro outro homem, disse pesarosamente:

- Achei em cima da cama dela assim que soube. Até que era boa pessoa – e depois de uma pausa, complementou. – Pagava em dia a semana do quarto.

O vizinho do quarto, sem prestar atenção no comentário do velho, leu o que dizia no papel, em silêncio guardo-o, e naquele momento viu que foi surpreendido, pois na sua frente morava um ser humano. Eis os versos que estavam escritos no papel:

“Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer nada
À parte disso tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

P.s: Trecho do poema "Tabacaria" de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

2 comentários:

  1. "Uma vida que não é examinada, não vale a pena ser vivida." Sócrates

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  2. Às vezes esse examinar torna a sangrar velhas feridas.

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