4 de março de 2010
Seu nome era Carlos e não se sabe a razão, mas naquela manhã estava gostando do seu nome, repetia, “Carlos! Carlos!” enquanto caminhava decidido pela rua. Carlos estava voltando de onde tomou uma decisão determinante em sua vida, e, completamente entorpecido por um sentimento que não sabia qual era, voltava para casa.
Chegou em casa fez uma mala não muito grande, procurou algum número que estava na sua lista de telefones e anotou em um papel, colocou a anotação na carteira, colocou no bolso, pegou a mala, trancou o apartamento e se mandou para resolver pequenas coisas no banco. Quatro horas da tarde, ele já estava dentro de um ônibus que levava a uma cidade bastante distante. A cabeça de Carlos rodava muito mais rápido que os pneus do ônibus e, ele sorria, ele ria, ele gargalhava, por quê? Não conseguia calcular o tamanho da sua atitude. Cada vez que pensava que era loucura, pensava “Ah! Às favas!” e pensava em outras coisas, ou deliciava-se com o vento que empurrava sua cabeça contra o banco. Ouviu vozes:
- Fecha essa janela, imbecil!
E ele sorria e pensava “É, eu realmente sou um imbecil”.
Já havia rodado quilômetros, já haviam passado muitas horas quando ele chegou naquela cidade tipicamente do interior, pela janela Carlos via alguns moradores e não tinha como não reparar na cara de inocência, na cara de quem vive bem a vida simples daquela gente. Ele respirava fundo, e cada vez mais tinha certeza de que estava fazendo a coisa certa. Desceu na rodoviária, pegou a bagagem e decidiu ir a pé até o seu destino. Divertia-se cumprimentando as pessoas que lhe respondiam, porém com uma cara de que não tinham certeza se conheciam aquele homem. Um velho chegou a virar para trás e o reconheceu, mas quando teve certeza Carlos já ia longe.
Aquela senhora quando abriu a porta não estava preparada para ver Carlos assim, tão surpreendentemente. Quase que tudo se estragou. Passado vinte minutos de recuperação o filho conseguiu recuperar a mãe que estava radiante de felicidade e, só abraçava e beijava a sua cria. “Eu sou um imbecil mesmo”, pensava ele, “poderia ter vindo aqui mais vezes” e ia desafogando a velha da sua inundação de alegria.
A mãe de Carlos era viúva e agora tinha além dele outro filho que morava numa cidade próxima, e a visitava seguidamente. Mas além de fazer tanto tempo que não o via, este era o seu filho mais novo, o que por morar longe deveria sofrer mais. Passado o momento do frenesi da chegada, começaram as perguntas, no entanto Caio – assim que ela o chamava, pois ele se autoapelidara por não saber pronunciar o nome quando era bebê – fugia das perguntas dizendo que estava com fome e cansado, depois responderia com calma. Comeu e foi dormir na sua cama de quando ainda era adolescente.
Ao acordar, pensando em como era bom estar ali, sentiu cheiro de comida. A mesa já estava posta e, mal chegou, a mãe já começou a tagarelar. Os vizinhos e as tias de segundo, terceiro e quarto graus já sabiam da visita. Carlos mal ouvia. Parou só quando ela disse:
- Liguei para o seu irmão, sabe como ele é...não falou quase nada, mas disse que no final de semana vem te ver.
- No final de semana já não estarei mais aqui, mãe. Vou abrir um negócio na praia de Paradiso – Falou Carlos.
A empolgada a velhinha parou o que estava fazendo e olhou Carlos com um olhar de quem não acreditava. Mas logo depois dessa reação, notando que o filho não ficara confortável, mudou o tom e perguntou mais descontraída:
- Mas e o seu trabalho lá na cidade?
- Larguei – Ele respondeu ao beliscar a comida que ela servia, e logo depois fez um gesto para que ela não se preocupasse.
Comeram tranquilamente. Na janta lembraram coisas do passado, riram das molecagens e das brincadeiras “desses guris” como dizia ela. Tudo correu bem, a harmonia parecia perfumar o ambiente. Foram até tarde conversando, até que a velha adormeceu. Carlos a acordou e ela foi dormir na cama. Ele tomou mais algumas taças de vinho e foi dormir também. O irmão de Carlos achou muito ruim a atitude do irmão, que ao sair pela manhã só deixou um bilhete avisando que fora embora sem ao menos se despedir, sem falar na atitude de largar o emprego para se aventurar em um negócio incerto.
Mas Carlos queria aventura mesmo. Chegou à praia e a primeira coisa que fez, foi comprar uma moto possante, pois sempre sonhara ter uma - porém as pessoas o censuravam. Então após abrir o seu negócio ele seria seu chefe e sairia a viajar por onde quisesse. Em busca desse objetivo, passado um mês no local Carlos estava com o seu bar de portas abertas, pois ele tinha economias. O que vendia já lhe sustentava sem luxos e, foi assim, sem preocupações, por anos. Todos gostaram do seu jeito, meio sério, meio divertido, “ele parece que sorri para tirar o atrasado” disse um cliente.
E passou um ano desde a abertura do bar Ventura. O bar ia bem porque o dono estava bem, e o dono não precisava de muito lucro, ele precisava outra coisa. E aconteceram várias! Carlos teve muitos amigos, viveu paixões, riu, chorou, abraçou sinceramente e tudo como alguém que encontra água no deserto e pensa só em beber. “Eu sou um imbecil” dizia ele gargalhando aos amigos quando estava bêbado.
Passou pouco mais de um ano, e uma “ardência” que havia tempos incomodava seu coração agora ficara insuportável. Carlos tinha que ver a sua mãe e seu irmão, era tempo disso. Talvez propusesse que viessem visitá-lo? Não, ele pegaria sua moto e iria dessa vez. Ligou para o seu irmão e combinou.
De manhã cedo pegou a sua moto e encarou a estrada. O encontro da família não poderia ser melhor. O irmão de Carlos ficou meio desconfiado à primeira impressão pelo seu sustento, mas depois esqueceu por ver como o irmão estava bem, até pediu conselhos e prometeu que iria levar a mãe, mulher e filhos deles lá "na sua praia", e, noutra vez iria sozinho. Diante de tudo isso a realização da mãe era plena por ver que a sua vida estava novamente se encaminhando como ela pedira nas orações. Na última noite os dois irmãos beberam bastante, confraternizaram e saudaram a vida que estavam levando. Já era tarde quando o irmão dele se despediu, pois um dos filhos chorava e a esposa o chamava. Carlos tomou mais meia garrafa de vinho e decidiu não cumprir o que tinha prometido, depois que abriu o Ventura aprendeu a confiar em si, e achou que se saísse aquela hora ainda chegava para abrir o bar em um horário bom para a clientela. Deixou mais uma vez um bilhete, o irmão até escutou o ronco do motor da motocicleta, mas achou que ele fosse pegar mais vinho e não se levantou.
No outro dia o Ventura não abriu, o irmão recebeu a notícia antes mesmo de ler o bilhete e, uma parte da mãe de Carlos morreu também.
Mas apesar da tristeza que obrigatoriamente restou, com o capacete aberto e o vento na cara, Carlos sorria quando apareceu aquele carro sem luz. Naquele momento ele pensava:
- Eu não sou um imbecil, eu conheci a felicidade!
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Thainã P: Adorei cunha vou ficar visitante assidua, continua escrevendo e vamos publicar isso. Foi o primeiro q tu escreveste depois do acorrido? Grande semelhança, muito comovente, a manteiga aqui tinha q se derreter. Bjs
ResponderExcluirQue bom que gostou. É impossível dizer que os fatos atuais não me inspiraram. Mas, também é uma mistura de mensagens que chegam e são assimildas pela minha cabeça. Daí formei um personagem e saiu isso. Valeu por ler.
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