quinta-feira, 4 de março de 2010

Da morte à vida

4 de março de 2010

Quando ele abre os olhos ao acordar nem pensa sobre a vida, sua mente já está automaticamente induzida a pensar o mesmo que pensa todos os dias. Abre os olhos assustado. Assimila que tem que desligar o despertador, desliga. Levanta e se espreguiça. Do escovar os dentes até a saída pela porta a rotina é precisamente a mesma. Se alguém dissesse que ele faz dormindo, poderia se acreditar.
Até o caminho ao trabalho é o mesmo, exceto pelo tempo que é mais original que ele próprio, muda às vezes. Os cumprimentos, as piadas, as risadas e até mesmo as xingadas do patrão se repetem. Invariavelmente, de segunda a sexta acontecia a mesma coisa. E durante todo esse tempo o que ele mais aguardava era o sábado e o domingo, como se fosse fazer algo extraordinário.
O sábado e o domingo sempre chegavam. E daí? Nada! No sábado locava um filme, muitas vezes algum clássico, quase sempre algum clássico, pois não queria arriscar de locar alguma novidade, e perder o seu precioso tempo assistindo alguma porcaria. Algumas vezes fazia uma janta, em outras encomendava uma pizza, mas sempre tomava um porre pela madrugada adentro. Era um homem de boa cultura, pois lia bastante, aliás, era até inteligente, todavia não a usava muito, a não ser nessas madrugadas de sábado para domingo que desvendava os problemas mundanos e sociais...para ele mesmo. Então dormia. No domingo, de ressaca, acordava, arrumava a bagunça da noite anterior, comia o resto da comida e recomeçava antecipadamente o martírio semanal, pois a partir do marasmo que é o domingo ele já começava a penar pensando na semana que viria.
Ele já vivera de outra maneira, mas alguém que manda em tudo lhe tirou peças importantes para sua vida ser algo empolgante e feliz. Aos poucos, devido a certas ausências o rapaz foi mudando, foi tornando-se insuportável e o mundo foi virando “um cara” medíocre e chato. As mudanças foram tão naturais que ele nem notou, a tristeza, que aparecera como um fugitivo que entra de abrupto procurando abrigo, se acomodou de tal forma com a sua hospitalidade, que quando a alegria foi embora levando sua bagagem, ele nem notou. Esqueceu que um dia ela o habitara.
Assim viveu anos e, isso não o incomodava, pois algo aconteceu cognitivamente com ele que esquecera totalmente como viver de outra forma. Era uma pessoa neutra, vivia porque tinha que viver, ou melhor: sobrevivia.
Mas a vida é inexplicável, é soberana. Seus ventos mudam sem aviso prévio e sem que possamos entender os motivos, lá no final ela deve apresentar as justificativas para os seus caprichos. Possivelmente, por isso certo dia ele abriu os olhos e pensou sobre a vida - tinha tido uma noite esquisita, agitada, desligou o despertador e seguiu pensando na vida. Não se espreguiçou e foi escovar os dentes, pensando, mas na frente do espelho concluiu os seus pensamentos. Sorriu, e fazia tempo que aquele espelho não refletia um sorriso, então se escovou, vestiu-se e foi rumo ao prédio onde trabalhava.
No prédio, entrou, sorriu ao porteiro que estranhou esse comportamento e mais ainda porque vinte minutos depois ele desceu com cara de alegre e deu um “Tchau!”.
Ele foi viver!

Um comentário:

  1. Nessa confusão de sentimentos que fica em nossas mentes acredito q uma das poucas maneiras de aliviar é escrever, é uma das formas mais saudáveis de expressar nossas dores, nossas alegrias e de fazer-nos refletir. Adorei o q escreveu, pois, não deixa de demontrar toda a tristeza e a vontade de se libertar dessa dor q está presa e acredito q vai ficar um bom tempo em nossos corações. (Thainã P)

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